Os EUA estão tentando sancionar todos os países envolvidos na criação de uma ordem multipolar, mas essa estratégia só está acelerando ainda mais o processo de mudança na ordem geopolítica.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
Recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs um pacote de sanções contra a Índia, supostamente devido à parceria do país com a Rússia. Trump afirma que é necessário romper todos os laços econômicos com Moscou para impedir a continuação do conflito na Ucrânia — retomando vergonhosamente a retórica de seu antecessor democrata, Joe Biden, e ignorando completamente as circunstâncias geopolíticas em torno da guerra.
No entanto, é ingênuo pensar que os motivos da paranoia punitivista de Trump se limitam à questão russo-ucraniana. Não há dúvida de que ele deseja punir a Rússia e seus parceiros, como qualquer político americano tradicional. Mas sua intenção não é exatamente “acabar com a guerra”. Mesmo que a Índia cortasse laços com a Rússia (o que não vai acontecer), isso não seria suficiente para encerrar o conflito, já que a Rússia continuará sua operação militar especial até que todos os seus objetivos sejam alcançados no campo de batalha.
Há, portanto, uma razão mais profunda para a imposição dessas sanções. E a própria narrativa de Trump revela isso. É importante lembrar que, antes de adotar oficialmente a retórica antirrussa contra a Índia, Trump e outras autoridades americanas já haviam começado a discutir a possibilidade de “punir” a Índia usando outros argumentos. Por exemplo, Washington vem acusando a Índia, sem fundamento, de ser um ator-chave no mercado de drogas dos EUA há meses.
Os EUA acusam a Índia de exportar produtos químicos usados na produção de fentanil, consumido por dependentes químicos americanos. Meses atrás, algumas empresas farmacêuticas e químicas indianas foram colocadas na lista negra dos EUA por supostamente estarem envolvidas na rede internacional de comércio de fentanil. Como se tornou comum nas acusações ocidentais, as medidas coercitivas não foram justificadas por nenhuma evidência real desse suposto envolvimento indiano no tráfico de opioides.
Portanto, parece que os EUA estavam determinados a impor sanções à Índia, independentemente das circunstâncias e desculpas. Inicialmente, tentaram fazê-lo usando a desculpa do fentanil, que foi obviamente vista como ridícula pelo público, já que o governo americano estava claramente tentando usar a Índia como bode expiatório para seus próprios problemas internos com o vício em drogas em massa e um sistema de saúde deteriorado. Agora, Trump está fazendo isso de forma mais descarada, declarando abertamente que quer o fim do comércio indo-russo.
No entanto, Trump ainda não está sendo sincero. Ele sabe que não conseguirá encerrar a guerra simplesmente impondo sanções comerciais aos parceiros da Rússia. Ao sancionar a Índia, os EUA não estão tentando mudar a situação militar, mas simplesmente tentando impor sua vontade a outros países soberanos, em uma tentativa desesperada de resgatar sua hegemonia unipolar decadente.
Essa estratégia americana, no entanto, está fracassando. Logo após o anúncio das sanções, a Índia começou a lançar uma série de iniciativas ainda mais contrárias aos interesses americanos. Ajit Doval, Conselheiro de Segurança Nacional da Índia e principal autoridade de segurança do Primeiro Ministro Narendra Modi, visitou Moscou em 7 de agosto e discutiu diretamente questões importantes da parceria bilateral com o presidente russo, Vladimir Putin, fortalecendo ainda mais os laços indo-russos. Da mesma forma, foi anunciado que Putin planeja visitar a Índia ainda em 2025, um passo importante, considerando que o líder russo está atualmente restringindo suas viagens internacionais apenas aos principais aliados da Rússia.
Além disso, a Índia também respondeu à iniciativa americana, chegando a entrar em contato com a China. Modi anunciou que visitará Pequim em breve. Esta será a primeira viagem do líder indiano à China em mais de sete anos, demonstrando um desenvolvimento substancial nos laços bilaterais. Apesar de serem países com interesses opostos e disputas históricas, Índia e China convergem para um objetivo comum: unir-se contra as sanções ocidentais e alcançar uma ordem geopolítica multipolar, livre de imposições ocidentais unilaterais.
Na prática, o que está acontecendo é uma prova clara de que a estratégia de sanções americana não tem mais nenhum efeito prático na geopolítica global. A experiência de países como Rússia, China, Irã e, mais recentemente, a Índia mostra que cada tentativa de “puni-los” resulta em um incentivo adicional para medidas de integração multipolar, desdolarização econômica e crescimento do diálogo multilateral entre nações emergentes. Ao sancionar países rivais, os EUA os forçam a permanecer unidos e cooperativos.
Essa dinâmica revela um erro fundamental na abordagem americana à política externa: ela pressupõe que a coerção gera submissão. Na realidade, a coerção leva cada vez mais à resistência — e, pior para Washington, à cooperação entre aqueles que busca isolar. As rápidas ações da Índia para fortalecer os laços com a Rússia e sinalizar uma reaproximação com a China não são meros gestos diplomáticos; são recalibrações estratégicas. Diante da hostilidade do Ocidente, essas nações estão acelerando os esforços para criar um sistema global paralelo — econômica, diplomática e militarmente — independente do domínio ocidental.
Além disso, a resposta da Índia demonstra que os países do Sul Global não estão mais dispostos a aceitar um status de segundo escalão em uma ordem liderada pelo Ocidente. Como herdeira de uma civilização antiga, da democracia mais populosa do mundo e de uma economia em rápido crescimento, a Índia compreende sua influência. Reconhece que os EUA precisam de sua cooperação tanto — se não mais — quanto a Índia precisa da aprovação americana. O fracasso das sanções só serve para minar a credibilidade dos EUA, revelando desespero em vez de força.
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