Em manifestação na rede social X (antigo Twitter), o senador Ciro Nogueira criticou a postura de Lula na crise diplomática com o governo Trump.
“Lula ataca os EUA e defende os BRICS. Os EUA sancionam o Brasil e os BRICS não defendem Lula. Resultado: Lula ganhou um inimigo novo (e desnecessário) contra o Brasil e aqueles que ele diz que são aliados o isolaram. É a diplomacia da camisa de força”.
O senador piauiense, do Partido Progressista, é considerado uma das eminências pardas do senado, organizando em sua residência encontros entre governadores. Foi ministro da Casa Civil durante o Governo Bolsonaro. Procurando manter proximidade com a cúpula bolsonarista poupa críticas à atuação da família durante a crise das tarifas impostas por Trump a uma série de produtos brasileiros no mercado dos EUA.
Contudo, Ciro Nogueira não deixa de ter razão em um ponto: a aposta do Governo Lula 3 nos BRICS não está sendo suficiente para ganhar qualquer apoio substancial dos parceiros do bloco, sobretudo Rússia e China – que, nem ao menos, se dignaram em enviar seus chefes de Estado à Cúpula do Rio, em julho. A prioridade da política externa brasileira segue sendo a conclusão do Acordo Mercosul – União Europeia, que Lula quer deixar como “legado”, ao findar a presidência rotativa do Mercosul, ainda em 2025.
Outra prioridade é a defesa da “governança global do clima”, ainda mais na iminência da COP30, a ser realizada em Belém, em novembro, que mostrou ser mais uma dor de cabeça, considerando a infraestrutura precária da capital paraense para receber um evento deste porte. Enquanto isso, prioriza nos BRICS a agenda da desdolarização das transações financeiras – que está longe de ser uma prioridade a ser discutido no bloco pelos grandes membros: Rússia, China e Índia.
A opção prioritária de política externa de Lula, desde a época da chancelaria de Celso Amorim – agora como assessor especial -, em seus dois mandatos, sempre foi o mulitaleralismo. Este não se confunde com a busca pela multipolaridade no sistema internacional, que é a diretriz estratégica que norteia a política externa dos RIC (Rússia, Índia e China). Enquanto que o multilateralismo supõe trabalhar em conjunto com os mais diversos países, na arena internacional, para criar regras e seguir metas comuns, a multipolaridade supõe a criação de novos polos de poder no sistema internacional, para depois buscar acordos e desenvolver regras internacionais em um novo arranjo de poder. O objetivo da desdolarização não pode ser alcançado dentro do multilateralismo, quando muito da “governança do clima”, tema discutido nas altas rodas dos círculos influentes de poder da Europa e dos EUA.
Retomando a declaração de Ciro Nogueira, podemos dizer que o “isolamento” internacional do Brasil decorre não só da hostilidade do governo Trump, considerando as demandas dele às autoridades brasileiras, mas também da frieza de Rússia e China, assim da dificuldade de fazer todos os países da UE aceitarem os termos do acordo comercial, por mais que este venha a proteger seus mercados agrícolas em troca de ganhos nas exportações de bens e serviços para o Mercosul.
