Wellington Calasans
O recente ataque de Israel na Faixa de Gaza, especificamente contra o Hospital Nasser em Khan Younis, foi mais uma brutalidade calculada de um regime que, há mais de nove meses, transformou um território sitiado em um matadouro.
Os ataques a bomba em “duplo tiro” — estratégia reconhecida como crime de guerra por atingir civis durante resgates — ceifou 20 vidas, incluindo cinco jornalistas e profissionais de saúde que tentavam socorrer os feridos.
Este não é um incidente isolado, mas parte de uma campanha deliberada de extermínio, documentada por relatores da ONU e organizações internacionais, que revela a intenção explícita de Israel em silenciar testemunhas e destruir a infraestrutura humanitária palestina.
A Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, Francesca Albanese, denunciou que “socorristas mortos em serviço” são agora cenários cotidianos em Gaza, muitas vezes apagados da narrativa global pela cumplicidade internacional.
Seu apelo por medidas urgentes — incluindo embargo de armas a Israel e sanções econômicas — ecoa a condenação de Philippe Lazzarini, chefe da UNRWA, que acusou Israel de “silenciar as últimas vozes que relatam crianças morrendo silenciosamente em meio à fome”.
Enquanto isso, o mundo permanece passivo diante de um genocídio em curso, onde 245 jornalistas já foram assassinados pelas forças israelenses, segundo o Ministério da Saúde de Gaza — um ataque sistemático à liberdade de imprensa e à verdade.
A Al Jazeera, a Reuters e a Associated Press confirmaram a morte de seus colaboradores no ataque ao Hospital Nasser, denunciando que Israel age com “impunidade” para “ocultar seus crimes contínuos em Gaza, incluindo o genocídio e a fome”.
O bloqueio imposto por Israel já causou a morte de dezenas por desnutrição, com 11 crianças perecendo de fome nas últimas 24 horas, segundo dados recentes.
Israel, os EUA e países europeus são aliados nos “crimes hediondos”, pois o apoio incondicional a Tel Aviv legitima uma limpeza étnica marcada pela destruição de hospitais, escolas e abrigos de civis.
Enquanto Israel insiste em justificar seus crimes como “guerra antiterrorista”, esconde-se atrás de uma narrativa manipulada que ignora seu papel como ocupante ilegal — um regime que, desde 1948, construiu seu Estado sobre a ocupação e o extermínio de palestinos.
A comunidade internacional, em sua inação criminosa, tornou-se cúmplice. Enquanto países como os EUA continuam enviando mísseis e blindados a Israel, a ONU falha ao não impor sanções reais.
Como alertou Albanese, a “carnificina” em Gaza não é um acidente, mas política de Estado. Cada jornalista assassinado, cada hospital destruído, cada criança morrendo de fome é uma mancha na consciência coletiva da humanidade.
No entanto, muito em breve, algo pode acontecer contra Israel, pois a Rússia evacuou silenciosamente os diplomatas russos com missão em Israel. Paralelamente a isso, a Austrália assumiu o papel menor de sabujo do G7 ao expulsar diplomatas iranianos sob falsas alegações de antissemitismo e outras mentiras de um governo refém do lobby sionista.
A recente acusação da Austrália contra o Irã por supostos ataques incendiários a sinagogas em Melbourne e Sydney contraria a lógica estratégica do Irã, pois em um contexto em que Israel intensifica sua retórica contra Canberra.
Para contextualizar, após o primeiro-ministro Anthony Albanese anunciar o reconhecimento de um Estado palestino, bloquear a entrada de um político israelense de extrema-direita e enfrentar a revogação de vistos para representantes australianos na Autoridade Palestina —, torna-se altamente improvável que o Irã buscasse deliberadamente escalar tensões com a Austrália.
Para um país que busca evitar uma nova rodada de agressões de Israel, já prevista para as próximas semanas sob a estratégia de “cortar a grama” de Tel Aviv, incendiar alvos aleatórios em um país periférico ao conflito seria contraproducente: não apenas exporia o Irã a sanções diplomáticas desnecessárias, mas também reforçaria o discurso de Tel Aviv de que Teerã representa uma “ameaça global”, justificando assim ataques iminentes apoiados pelo G7.
Longe de lucrar com tais provocações, o Irã tem interesse em neutralizar narrativas que legitimem a escalada militar de Israel — especialmente em um momento em que os EUA, sob pressão do calendário eleitoral de meio de mandato, hesitam em se comprometer com uma guerra ampla.
A pressa australiana em rotular os incidentes como “ato de agressão orquestrado por uma nação estrangeira”, sem apresentar evidências públicas convincentes, sugere antes uma manobra para aplacar a ira sionista contra Canberra.
Ao expulsar o embaixador iraniano, Albanese — recentemente taxado de “fraco” por autoridades israelenses — busca reafirmar sua lealdade à falsa narrativa de segurança de Israel, mesmo enquanto milhares de australianos protestam contra o genocídio em Gaza.
Este movimento diplomático ocorre em um cenário em que Israel prepara novos ataques preventivos ao Irã, visando impedir sua capacidade de capacitar ainda mais a sua defesa.
A Austrália, ao adotar acusações não verificadas, não apenas se alinha cegamente aos interesses de Tel Aviv, mas também contribui para o enquadramento midiático que normaliza a agressão israelenses como “legítima defesa”.
Enquanto isso, o Irã, consciente de que uma guerra total com Israel exigiria uma resposta imediata e contundente, evitaria deliberadamente ações que antecipassem seu isolamento internacional — especialmente quando seu verdadeiro objetivo é romper o ciclo de ataques preventivos, não alimentá-lo com gestos irracionais em território australiano.
Por isso, a recente decisão da Austrália de expulsar o embaixador do Irã por supostos “ataques antissemitas” em Melbourne e Sydney revela não apenas uma manobra diplomática precipitada, mas uma profunda cegueira política que prioriza também a retórica seletiva sobre o antissemitismo, enquanto ignora sistematicamente o genocídio em curso em Gaza.
Antissemitismo x Antissionismo
Ao instrumentalizar acusações de antissemitismo para legitimar ações contra nações que ousam criticar o regime sionista, a Austrália demonstra claramente que seu compromisso com a justiça internacional é subordinado aos interesses geopolíticos de Israel — um regime cujas ações brutais são hoje protegidas por um escudo histórico de má-fé.
O cerne da hipocrisia australiana reside na confusão deliberada entre antissemitismo e antissionismo. Condenar o sionismo — ideologia política que instrumentaliza a identidade judaica para justificar a ocupação colonial e o extermínio de palestinos — não equivale a atacar judeus como grupo étnico ou religioso.
Pelo contrário, é um dever moral expor como o sionismo, desde suas origens, tem se aliado a forças opressoras em nome de seus objetivos expansionistas.
Documentos históricos revelam que, já em 1933, organizações sionistas assinaram acordos com o regime nazista para facilitar a imigração de judeus alemães para a Palestina, em um claro pacto de conveniência que beneficiou ambos os lados.
O Acordo Haavara, por exemplo, permitiu que o capital judaico fosse transferido para a Palestina mediante a compra de produtos alemães, fortalecendo indiretamente a economia nazista em troca de permissão para emigração seletiva.
Longe de ser uma anomalia, essa colaboração foi parte de uma estratégia sionista que, em certos momentos, viu naquele nacional-socialismo uma oportunidade para consolidar seu projeto colonial.
Hoje, o mesmo modus operandi persiste: ao se esconder sob o manto do antissemitismo, o sionismo transforma qualquer crítica à sua máquina de guerra em Gaza em um “crime de ódio”, silenciando vozes que denunciam o genocídio.
A Austrália, ao adotar essa narrativa, ignora deliberadamente que a comunidade judaica global está profundamente dividida sobre o sionismo. Algo que tem sido uma das grandes barreiras aos planos messiânicos do criminoso de guerra Benjamin Netanyahu naquela região.
Enquanto judeus progressistas e organizações como (Jewish Voice for Peace) condenam o apartheid israelense, Canberra escolhe alinhar-se àqueles que reduzem a identidade judaica a um projeto político colonial.
Pior: ao expulsar o embaixador iraniano com base em alegações não comprovadas publicamente — e sem sequer envolver diplomatas iranianos nos ataques, segundo as próprias autoridades australianas —, o governo de Anthony Albanese reforça uma narrativa que serve exclusivamente aos interesses de Israel, cuja campanha de extermínio em Gaza já foi reconhecida como plausível genocídio pela Corte Internacional de Justiça (CIJ).
A cumplicidade australiana com o silêncio sobre Gaza ganha contornos ainda mais escandalosos quando analisada em paralelo com a parcialidade institucional que protege Israel.
A recente exigência da Comissão Internacional de Juristas para que Julia Sebutinde, vice-presidente da CIJ, seja removida do caso de genocídio movido pela África do Sul contra Israel — após ela declarar publicamente que “o Senhor conta comigo para ficar ao lado de Israel” e descrever o genocídio em Gaza como um “sinal do Fim dos Tempos” — evidencia como instituições internacionais estão infiltradas por agentes ideologicamente comprometidos.
Enquanto a Austrália finge defender a “coesão social” ao expulsar diplomatas, permanece em silêncio sobre como juízes da CIJ usam seus cargos para promover uma agenda pró-genocida.
A expulsão do embaixador iraniano não é, como afirma Albanese, um “ato de defesa da democracia”, mas sim um golpe contra a diplomacia multilateral.
Ao seguir o roteiro traçado por Israel — que há décadas patrocina ações de provocação para justificar represálias —, a Austrália reforça um ciclo vicioso em que acusações de antissemitismo são usadas para legitimar a violência estatal.
O sionismo, que historicamente se aliou a forças fascistas quando lhe convinha , hoje deturpa a memória do Holocausto para blindar seu próprio projeto colonial. Enquanto isso, Gaza sangra, e países como a Austrália escolhem ser cúmplices desse crime, trocando princípios éticos por alianças mesquinhas.
É hora de romper com essa hipocrisia: o antissemitismo real não é combatido com expulsões diplomáticas seletivas, mas com a condenação incondicional de todos os regimes que perpetuam a opressão — sejam nazistas do século XX, sejam sionistas do século XXI.
A Austrália, ao alimentar o falso debate em torno do antissemitismo, não apenas trai seu próprio compromisso com a justiça, mas se torna parte ativa na encenação que permite que o genocídio em Gaza continue impune.
É urgente romper com a hipocrisia: Israel não é vítima, mas algoz; não merece apoio, mas isolamento total. A história julgará severamente aqueles que, diante do genocídio, escolheram olhar para o outro lado.
Se o G7 der o passo errado de apoiar Israel em uma ação de agressão contra o Irã, certamente teremos o capítulo final desta história. O Irã não está sozinho.
