Não é de hoje que a esquerda tem atuado como ponta de lança de poderes externos que visam manter o Brasil no subdesenvolvimento. O que pareceria um contrassenso à esquerda anti-imperialista dos tempos da Guerra Fria, tornou-se consenso deste campo político na atual república.
Amaryllis Rezende
O filósofo canônico do campo da esquerda, Karl Marx, baseia seu projeto político na ideia de superação: o Comunismo é concebido como resultado inevitável do avanço nas dinâmicas de produção e utilização de recursos para gerar riqueza e das relações engendradas a partir dele. Essa concepção escatológica fez com que o uso do termo “progressista” se tornasse habitual para fazer referência aos que atuavam politicamente por esse avanço. Mas no contexto brasileiro atual, verifica-se que, por meio de obscuras manobras discursivas, no âmbito do pensamento, e financiamentos massivos por parte de interesses externos privados ou estatais, no âmbito da materialidade crua, os outrora nomeados progressistas da esquerda têm atuado consistentemente para reter quaisquer perspectivas de desenvolvimento econômico nacional.
Há pelo menos duas décadas, assistimos a proliferação de processos, projetos de lei e mobilizações de toda natureza, vindas de partidos esquerdistas ou por eles apoiadas, visando impedir obras de infraestrutura, exploração de recursos minerais e mesmo a atividade agrícola. O ataque não se apieda em razão da condição de classe ou da natureza pública do alvo – é desfechado contra os garimpeiros pobres da Amazônia e contra a exploração estatal dos minérios abundantes no nosso solo, atinge do grande produtor de soja no Centro-Oeste ao pequeno pecuarista no Norte – e tanto mais violento se torna quando conta com a mão do Estado, sufocando a si próprio sob o controle de um desses partidos, de onde uma ou outra figura ainda emite uma abafada voz discordante sem qualquer tipo de resultado prático. Tais espasmos de discurso servem ao fito de manter acesa a esperança e a fidelidade naqueles progressistas que ainda não perceberam que a porteira do brete já correu, e é nessa chave que devemos ler a campanha publicitária supostamente soberanista do governo em resposta às tarifas de Trump e o presidente Lula dizendo-se defensor da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, enquanto recebe carta da própria base parlamentar com posição contrária e o licenciamento continua parado.
A esquerda toda parece padecer da submissão à agenda verde, priorizando-a em detrimento de evidentes interesses econômicos e sociais internos e, por vezes, chegando ao descaramento. Em 2021, toda a bancada psolista no Congresso Nacional assinou carta enviada ao senador estadunidense Bernie Sanders solicitando apoio para barrar definitivamente a construção da Ferrogrão, obra de grande importância para melhorar o escoamento da produção brasileira de grãos, a qual já se encontrava embargada por decisão do STF suscitada por ação do mesmo partido. A despeito do evidente benefício desse tipo de transporte, especial e ironicamente no quesito ambiental, a obra continua parada e em litígio, na reta final de 2025.
Mesmo entre setores marxistas que são, por vezes, elogiados e mantém diálogo no círculo nacionalista e desenvolvimentista por suas críticas comuns ao rentismo, encontra-se exemplos da defesa escandalosa do subdesenvolvimento. É o que se vê no texto publicado no IELA (Instituto de Estudos Latino-Americanos, da Universidade Federal de Santa Catarina) semana passada por Marino Mondek, um dos signatários do “Manifesto pela Revolução Brasileira”. Intitulado “As Terras Raras e a Ilusão do Desenvolvimentismo em Tempos de Colapso”, o artigo começa afirmando que os recursos naturais devem servir ao povo brasileiro, mas essa premissa logo se ofusca dando lugar à da soberania “dos povos” sobre seus “territórios”, como se estes nada tivessem com aquele primeiro. Essa mudança não muito sutil de uma perspectiva nacional para outra divisionista e fragmentária é suficiente para alertar quanto à provável falha de coerência.
O texto segue, em oposição a outro previamente publicado na Carta Capital e que defendia a exploração estatal das terras raras brasileiras. Mondek argumenta que tal modelo apenas colocaria o Estado no lugar do capital estrangeiro como operador da “pilhagem” sistemática da “integridade dos ecossistemas” que caracteriza a exploração de recursos nos marcos capitalistas, pregando a “não exploração” destes como imperativo da luta de classes. Como o Estado se reduz, nessa perspectiva, a um instrumento capitalista como outros, nota-se o desdém por suas instituições e símbolos: tanto faz se a terrível barbárie poluidora ocorre sob a égide da bandeira nacional. Podemos deduzir, portanto, que para este marxista é indiferente se a Petrobrás detém ou não o controle da cadeia petrolífera, uma vez que tanto ela quanto empresas estrangeiras são incapazes de propiciar um “desenvolvimento anticapitalista” e todas espoliam “os povos”. Porém, essas pressuposições não apenas carecem de esteio em qualquer experiência marxista de alcance nacional, como aniquilam a lógica marxista mencionada no início deste texto, na qual o desenvolvimento capitalista levaria inexoravelmente à sua superação.
São citados brevemente alguns exemplos latino-americanos (limitados e sem contexto) de exploração estatal que, segundo ele, teriam sido mal sucedidos. Num deles, do Parque Nacional Yasuní, no Equador, foi proibida via plebiscito a exploração da reserva de petróleo mais rica do país, o que Mondek atribuiu à força popular. Ele não esclarece, no entanto, que na província de Orellana, onde acontecia de fato a exploração, a maioria dos votos (quase 58%) foi para que a operação continuasse.
Além disso, é interessante que a “não exploração” seja citada como uma demanda da luta de classes, sendo que o autor provavelmente se coloca como um campeão da classe mais pobre e vulnerável, porém ele não cita nenhum tipo de consulta feita com essa parcela da população local e que possa expressar a sua vontade. Tampouco é apresentada qualquer justificativa política ou de outra natureza para que a população, especialmente a classe trabalhadora, não fosse beneficiar-se de uma atividade econômica com grande potencial numa região quase estagnada nesse sentido e com indicadores sociais muito baixos.
O autor reduz a exploração de terras taras ao comércio de commodities e a uma necessidade da chamada “transição energética capitalista”. Porém, além das importantes divisas que tal comércio poderia trazer num contexto econômico que exige urgentemente a geração de receitas, os usos de tais minérios incluem também a produção de bens de consumo bastante comuns e aos quais o povo brasileiro certamente gostaria de ter acesso facilitado.
Diante de tudo isso, quais seriam os planos alternativos do senhor Marino Mondek? Para além da mera elucubração ideológica, identificamos duas propostas: diminuir drasticamente o consumo global de energia e investir em tecnologia. Há algumas contradições gritantes entre uma e outra: como fazer com que o país cresça e gere riqueza para investir em pesquisa e capacidade industrial, necessárias à viabilização de novas tecnologias, poupando energia?
Importante lembrar também que nem o Estado nem o povo brasileiro têm alcance para forçar o mundo a parar de gastar energia. Deveriam, então, os brasileiros sacrificar seu crescimento (econômico, populacional, industrial…) para promover a queda do consumo global de energia? A quem isso beneficiaria? Com certeza não aos próprios brasileiros.
O texto alega que essa suposta redução ocorreria “repensando o consumo e a forma de produção e reprodução da vida”, mas não fornece nenhuma indicação concreta de como isso seria possível, uma vez que a manutenção e reprodução da vida sempre exigiu energia, e tanto maior a demanda quanto maior a complexidade da sociedade e das possibilidades e soluções que ela oferece. Sobre a tecnologia na qual se deve investir, Mondek afirma que ela não deve ser a “tecnologia destrutiva do capital” (existe outra?), mas uma que “se adapte à preservação da vida no território”. Em primeiro lugar, a tecnologia existente não é bem “do capital”: o domínio da técnica se aprimora a partir do refinamento de uma outra mais rudimentar e quando há condições intelectuais e materiais para fomentar novas descobertas científicas; sendo que muitas tecnologias em uso por todo o mundo, atualmente, foram desenvolvidas no contexto do socialismo real.
Dito isso, como é que se espera que o Brasil desenvolva tecnologia sem que sequer domine as que já existem? Outro ponto é que numa compreensão realista do cenário geopolítico, a preservação da vida – dos brasileiros, da nossa fauna e flora, mas também da nossa nação com suas instituições e tradições – depende diretamente da capacidade política, econômica e de defesa do território nacional: essas são as reais necessidades do povo, não devaneios sobre uma “sociedade radicalmente nova” da qual não se vislumbra nenhuma informação confiável ou um mínimo de base na realidade.
Há subsídio suficiente para saber que as posições defendidas no texto analisado acima são hoje hegemônicas no campo da esquerda marxista (ou que o foi um dia, mas ainda julga ser). É bastante irônico que um conjunto de ideias e noções tão desligado da vida real e dos fatos seja considerado por seus defensores como materialismo do mais bruto e científico, e não lhes desperta estranheza alguma o fato de que essa agenda seja a mesma do Clube de Roma, do WEF – dos maiores financistas globais. A sanha dos esquerdistas por atacar a burguesia que explorava a força de trabalho – sim, mas enquanto gerava emprego – levou-os a condenar a produção como um todo e atuar como soldados rasos da burguesia rentista, que segue espoliando riqueza sem nenhuma contrapartida para a sociedade, com pouco ou nenhum incômodo. É inadequado que se siga chamando a este campo político progressista: são primitivistas, paladinos do encolhimento das nações, da poupança de recursos para proveito dos bilionários num mundo despovoado e sem fronteiras.
