Lorenzo Carrasco
A notícia de que o presidente Donald Trump está promovendo a compra de participações acionárias do governo em empresas consideradas estratégicas, como a US Steel e a Intel, com outras na mira, deu um autêntico nó nas cabeças dos que veem qualquer presença do Estado na economia como uma heresia.
Um apoplético editorial do “Estadão” de 29 de agosto, intitulado “Os Estados Unidos no caminho da servidão”, reflete a desorientação daqueles círculos, dos quais o jornalão da família Mesquita é um dos principais porta-vozes no Brasil.
Os furibundos editorialistas depreciam a pauta de Trump como “capitalismo de Estado”, “um filho bastardo do que há de pior no estatismo chinês e no populismo latino-americano”, que “ameaça o modelo de prosperidade e democracia nos EUA”. “Aumentar impostos por meio de tarifas generalizadas, intervir em companhias privadas, flertar com estatizações ou pressionar o banco central são iniciativas mais familiares ao repertório de demagogos latino-americanos conhecidos por arruinar suas economias à força de decretos”, escrevem os autores.
“Ao abraçar a cartilha dirigista, Trump sufoca o dinamismo do mercado e alimenta o que jurava combater: o pântano de privilégios”, sentenciam eles.
Ora, em sua fúria “antidirigista”, os escribas dos Mesquita fingem ignorar que, em seu primeiro mandato, Trump já havia interferido no sacrossanto “mercado”, ao impedir a venda a interesses estrangeiros de empresas como a Fairchild Semiconductors, Lattice Semiconductors e Jupiter Systems, alegando que a desnacionalização era contrária à segurança nacional.
Aliás, os EUA têm um Comitê de Investimentos Estrangeiros nos EUA (CFIUS), que examina precisamente casos como esses. Igualmente, seu antecessor Barack Obama interveio na poderosa General Motors para impedir a sua quebra iminente durante a crise financeira de 2008.
Da mesma forma, os batedores de bumbo do ultraliberalismo ignoram que os EUA, mesmo sendo campeões da livre iniciativa, têm cerca de 7 mil empresas federais, estaduais e municipais, que atuam nos setores de crédito, hipotecas, seguros, habitação, infraestrutura, energia e outros.
Ao contrário do que dizem os editorialistas, os EUA têm uma longa tradição “dirigista” que remonta às origens do país, com as políticas do secretário do Tesouro Alexander Hamilton, que fomentaram as atividades produtivas com crédito e proteção quando necessário e viabilizaram o desenvolvimento da infraestrutura. Este é o “Sistema Americano”, mais que o “livre comércio, descentralização, competição e Estado de Direito”, apregoados pelo “Estadão”.
Sistema que, em grande medida, foi de fato adaptado pela China pós-Mao. E, se os EUA de Trump podem imitar a China, por que o Brasil não pode imitar os EUA de Trump?
