Lorenzo Carrasco
No início de novembro, o presidente Donald Trump surpreendeu o mundo ao escrever na sua rede social que havia determinado que os EUA “começassem a testar as nossas armas nucleares em base igual” à das potências rivais.
O anúncio ensejou reações veementes em vários países, com destaque para a Rússia e a China, além do temor de que uma retomada dos testes possa elevar ainda mais o risco de um confronto nuclear. Porém, logo, o secretário de Energia, Chris Wright, cuja pasta é responsável pela manutenção do arsenal nuclear estadunidense, tratou de esclarecer que seu chefe não se referia a explosões nucleares, mas a testes não explosivos dos componentes dos respectivos artefatos. Tanto os EUA como as demais potências nucleares encerraram seus testes explosivos na década de 1990 e a Coreia do Norte declarou uma moratória nos seus em 2018 e a tem mantido.
A atitude de Trump foi uma resposta aos recentes anúncios da Rússia sobre as suas novas e revolucionárias armas nucleares, o míssil de cruzeiro Burevestnik, cuja propulsão nuclear lhe confere um alcance praticamente ilimitado, e o supertorpedo nuclear Poseidon, teoricamente capaz de provocar tsunamis sobre alvos costeiros.
Todavia, ao contrário do que pode indicar o senso comum, é possível que esses anúncios contribuam para reduzir, em vez de aumentar, os riscos de que os confrontos bélicos em curso possam escalar para uma fase nuclear. Tais riscos, reconhecidamente, estavam em níveis bem mais altos no governo do antecessor de Trump, o senil Joe Biden, cujos principais assessores de política externa e de defesa se empenhavam em desdenhar tal possibilidade ao desenhar a sua estratégia de confronto por procuração com a Rússia, usando a Ucrânia como preposto, parecendo ter esquecido todos os princípios fundamentais da dissuasão nuclear estabelecidos desde a Guerra Fria.
O então secretário de Estado Antony Blinken chegou a afirmar que a ameaça de uma guerra nuclear não era mais perigosa que as mudanças climáticas, sendo ecoado pelo próprio Biden.
Advertências nesse sentido foram feitas durante anos por estrategistas russos, entre eles o Prof. Sergei Karaganov, presidente honorário do Presidium do Conselho de Política Externa e de Defesa da Federação Russa. Em setembro de 2023, em um artigo intitulado “Como evitar uma Terceira Guerra Mundial”, ele foi categórico: “Sem reforçar a dissuasão nuclear e restaurar o medo da guerra nuclear, incluindo uma ameaça crível de uso limitado de armas nucleares, uma guerra global, dada a trajetória dos desenvolvimentos globais, é praticamente inevitável.”
Karaganov enfatizou a necessidade de se “reinstalar o medo da guerra nuclear, que salvou o mundo durante a Guerra Fria. É o medo do Armagedon nuclear que pode dissuadir e civilizar as elites (ocidentais)”.
À sua maneira e ao seu estilo, Trump parece ter entendido o recado.
