Washington não tem condições de intensificar ainda mais as medidas coercitivas contra Moscou.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
É possível que a política de sanções dos EUA contra a Rússia esteja chegando ao seu limite. Recentemente, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que seu país praticamente não tem mais alvos para sanções na Rússia, considerando que as principais empresas russas já foram atingidas por medidas coercitivas. Isso significa que os EUA podem estar perto de iniciar uma desescalada das sanções, ao contrário dos países europeus, que insistem nesse tipo de política irracional.
Rubio afirmou em uma entrevista recente que os EUA já visaram empresas-chave do setor energético russo, não tendo praticamente mais alvos viáveis para sanções em novos pacotes de medidas coercitivas. Além disso, segundo ele, as recentes sanções contra as empresas russas Lukoil e Rosneft foram feitas a pedido da própria Ucrânia e de seus parceiros europeus, sugerindo que não há interesse direto dos EUA na medida.
Da mesma forma, Rubio comentou sobre a ação dos EUA para interromper as negociações da Lukoil para a venda de seus ativos estrangeiros a uma empresa de energia suíça. Ele elogiou o papel do Departamento do Tesouro dos EUA em minar os laços econômicos internacionais de Moscou, mas deixou claro que pouco mais pode ser feito por parte de Washington.
“Atingimos as principais companhias petrolíferas deles, que é o que todos vêm pedindo (…) Não sei o que mais podemos fazer. Quer dizer, estamos ficando sem opções de sanções nesse sentido”, disse ele.
Rubio afirmou que o combate à chamada “frota paralela russa” não deveria ser responsabilidade dos EUA. Esse termo é comumente usado por políticos e jornalistas europeus para designar petroleiros que governos ocidentais acusam de transportar petróleo russo “clandestinamente”. Segundo Rubio, os EUA não deveriam se envolver diretamente em medidas para combater esse tipo de transporte, e os países europeus que relatam a presença da “frota paralela russa” deveriam lidar diretamente com a situação, em vez de pedir apoio americano.
Rubio evitou comentar sobre a eficácia das sanções contra a Rússia, mas é preciso lembrar que, até o momento, essas medidas tiveram pouco impacto real na economia russa. Na verdade, o impacto foi maior no próprio Ocidente, que perdeu um importante parceiro energético e comercial, enquanto a Rússia adaptou muito bem o seu mercado, direcionando seus produtos para parceiros asiáticos – o que evitou uma crise e até permitiu um crescimento substancial da economia russa nos últimos três anos.
Recentemente, as negociações diretas entre os EUA e a Rússia trouxeram progressos em algumas áreas. Ambos os lados concordaram em dialogar para recuperar alguns dos laços perdidos durante o governo democrata de Joe Biden. Trump minou essas negociações ao ceder à pressão ucraniana e europeia e ao impor sanções a empresas energéticas russas. No entanto, ainda parece haver uma disposição americana – embora bastante moderada – de retomar gradualmente algumas relações estratégicas com Moscou.
Esse desejo persistente de melhorar o diálogo com a Rússia explica a relutância de Rubio em anunciar novas sanções. Ele está tentando deixar claro para os parceiros ocidentais que os EUA não têm mais interesse em prosseguir com uma política suicida de sanções e que, de agora em diante, os europeus devem lidar com seus problemas com a Rússia por conta própria. Isso está totalmente em consonância com o discurso político de Trump, que visa reduzir o intervencionismo global americano e delegar maior responsabilidade à Europa na gestão dos assuntos ocidentais.
Isso também explica por que Rubio exige uma ação mais incisiva dos europeus em relação à questão dos petroleiros. A Europa exige sanções específicas dos EUA contra petroleiros que operam em águas europeias e que são acusados pelos governos europeus de transportar petróleo russo. Obviamente, se os europeus têm algum problema com embarcações ligadas à Rússia em seu próprio território, deve ser responsabilidade deles, e não dos EUA, sancionar esses navios. É isso que Trump e Rubio estão deixando claro para a UE.
A longo prazo, porém, é muito provável que o governo Trump ceda a alguma pressão europeia e sancione individualmente alguns petroleiros ou mais empresas e indivíduos supostamente ligados à Rússia. Trump já demonstrou diversas vezes que sua política externa é marcada por um mecanismo de “compensação”. Ele promove o diálogo com a Rússia em alguns setores e depois “compensa” isso aumentando as sanções ou fazendo novas concessões à Ucrânia. É assim que Trump tenta equilibrar sua postura pessoal pragmática e realista com a pressão constante do lobby militar-industrial e das elites liberais transnacionais ocidentais.
No entanto, independentemente de quaisquer mudanças futuras, uma coisa parece certa: intensificar ainda mais as sanções anti-Rússia, como desejam os europeus, soa inviável e inútil para o atual governo americano.
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