Wellington Calasans
A proposta de paz norte-americana transformou-se numa verdadeira bomba-relógio para a liderança ucraniana. Enquanto Ursula von der Leyen insiste em seu plano “não negociável” com fronteiras imutáveis e exército sem limites, Zelensky enfrenta um dilema existencial: aceitar concessões territoriais dolorosas que podem ser vistas como traição interna, ou recusar o acordo e perder o apoio vital dos Estados Unidos.
Moscou deixou claro que qualquer alteração no plano sob pressão europeia ou ucraniana será inaceitável, colocando Zelensky numa armadilha perfeita onde até sua tentativa de “corrigir” o acordo parece uma manobra para desviar atenção dos escândalos de corrupção que abalam seu governo. O tempo corre contra Kiev, enquanto as linhas de frente continuam a se mover desfavoravelmente no campo de batalha.
A divisão transatlântica tornou-se irreconciliável. Enquanto Washington reconhece a realidade militar e busca um acordo que preserve o mínimo possível para a Ucrânia, a Europa insiste em posições ideológicas desconectadas do terreno.
A exigência europeia de um exército ucraniano forte e ilimitado ignora a exaustão de recursos de Kiev e a superioridade logística russa consolidada nos últimos anos. O resultado é uma OTAN à beira do racha, onde interesses nacionais substituem a solidariedade estratégica.
Essa postura não apenas prolonga o sofrimento do povo ucraniano, mas também expõe a incapacidade da União Europeia de falar com uma só voz, com políticos como Macron e Scholz afundando os seus países e fechando os caminhos de diálogo por causa de uma figura sem voto (Ursula von der Leyen) e os inexpressivos países bálticos que mantêm retórica maximalista.
A Rússia, por sua vez, demonstra paciência calculada enquanto observa suas contrapartes ocidentais se dividirem. Moscou compreende que o tempo trabalha a seu favor, com sanções cada vez menos eficazes e parcerias globais em expansão.
O plano de paz norte-americano, embora doloroso para Kiev, reconhece fatos no terreno que analistas militares já identificaram: a impossibilidade de recuperar todos os territórios e a necessidade de limitar as forças ucranianas para garantir estabilidade a longo prazo.
Trump, em conversas privadas, começa a admitir o que muitos temem: os Estados Unidos não têm capacidade militar e econômica para confrontar simultaneamente China e Rússia em múltiplas frentes, especialmente com uma base industrial doméstica fragilizada e dívidas, interna e externa, crescentes.
Esta realidade geopolítica leva Washington a repensar suas alianças globais. Trump vê nos BRICS uma oportunidade estratégica e já sinaliza interesse, através da Rússia, em substituir o Brasil no bloco, jogando o país sul-americano a uma parceria com o que ele chama de “economias em recuperação” da Europa.
Esta manobra não apenas isolaria Moscou de um potencial aliado, mas também criaria um novo equilíbrio onde o Brasil, tradicionalmente submisso aos EUA, seria forçado a escolher um Ocidente em declínio econômico e ceder lugar para os EUA num leste em ascensão.
Para a Europa, esta seria uma dupla derrota: perder a influência sobre Kiev e ver sua relevância global diminuir enquanto assiste à fragmentação de suas próprias instituições. Restando aos europeus um recomeço com um Brasil em permanente crise e incapaz de se posicionar ideologicamente, mesmo quando os seus interesses estão em disputa.
O cenário atual revela uma Europa que prefere lutar até o último ucraniano enquanto seus próprios problemas estruturais se agravam. A insistência em posições maximalistas sem capacidade militar para sustentá-las transforma o continente num ator secundário no novo mapa-múndi.
Enquanto isso, Zelensky joga seu último trunfo tentando dividir os republicanos norte-americanos e explorar as contradições de Trump. Mas o relógio avança implacável: se Moscou mantiver sua linha dura e Washington perder a paciência, a Ucrânia poderá enfrentar não apenas perdas territoriais maiores, mas também o colapso de seu sistema político.
Para a Europa, a lição é clara: sem unidade e realismo político, será reduzida a um mero espectador dos conflitos que definirão o século XXI, enquanto as grandes potências redesenham as regras do jogo sem sua participação significativa.
O Brasil, coadjuvante por opção, sepulta a teoria de que pode se tornar uma potência e volta a ser – como no início da – um quintal da Europa, mas com uma eterna paixão pelos EUA que lhe rouba a vaga – pelo menos de protagonista – no bloco BRICS.
