Movimento de Solidariedade Ibero-americana
O que a “Nova Ordem Mundial” se propôs a implementar entre as nações ibero-americanas, no início da década de 1990, era uma ordem pós-Estados nacionais soberanos,que seriam substituído por um sistema de soberanias limitadas, como condição para o controle dos seus vastos recursos naturais. Tal compartilhamento de soberanias implicava no desmantelamento de suas Forças Armadas, seus projetos de tecnologias avançadas, o debilitamento das forças da ordem pública, a privatização de empresas estratégicas, a adoção de políticas econômicas neoliberais (“Consenso de Washington”) e a imposição de uma ideologia identitária, em ataque direto aos princípios de Pátria e família.
Para implementar essa “nova ordem”, a oligarquia internacional fomentou a criação de uma constelação de organizações não governamentais (ONGs) especializadas em instrumentalizar politicamente causas de grande impacto propagandístico, como a defesa dos direitos humanos e dos povos indígenas, a “proteção” de um meio ambiente “desantropizado”, o desarmamento civil e outras.
Tais entidades, também chamadas “neogovernamentais” pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos seus mais ardentes defensores, recebem generosos financiamentos de fundações privadas e governos de países industrializados da América do Norte e da Europa, alinhados com as diretrizes oriundas do eixo anglo-americano. Um papel fundamental tem sido exercido pelo mega-especulador financeiro George Soros, pioneiro nas políticas de legalização do consumo de drogas alucinógenas, por meio de suas fundações do grupo Open Society.
Na Ibero-América, essa utopia de um virtual “governo mundial” controlado pela alta finança globalizada e seus instrumentos de influência abriu caminho para a imposição de soberanias territoriais sobre amplas regiões do subcontinente por facções criminosas organizadas em escala transnacional. O resultado é um intrincado sistema de “microssoberanias” ou virtuais “micro-estados”,controlando a vida do equivalente de mais de um quarto da população de todas as nações ibero-americanas, desde o rio Bravo à Patagônia. De acordo com um estudo da Universidade de Cambridge, nada menos que 26% da população brasileira vive em áreas sob o domínio do crime organizado. No México, o estudo indicou que os narcocartéis empregam cerca de 175 mil pessoas, mais que as duas gigantes estatais Pemex e Comissão Federal de Eletricidade (CFE). A grande maioria delas é recrutada como “soldados”, em sua maioria jovens, até adolescentes, subjugados pelos cartéis para defender as suas “microssoberanias”.
No Brasil, essa crua realidade emergiu claramente no domínio público em 28 de outubro, quando forças policiais atacaram um virtual centro de treinamento de narcoterroristas da facção Comando Vermelho (CV) nas favelas da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro.
A origem do CV remonta à década de 1970, no presídio da Ilha Grande, onde criminosos comuns conviveram com presos políticos de grupos armados contra o regime militar, dos quais absorveram a linguagem, disciplina coletiva, organização em células e os códigos de solidariedade típicos desses grupos. Por isso, passaram a ser conhecidos como Falange dos Vermelhos ou Falange Vermelha, que, após a sua libertação, organizou-se e cresceu até atingir as atuais proporções do Comando Vermelho.
Hoje, o CV, juntamente com a sua contraparte de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), têm operações conhecidas em 28 países, inclusive em quase todos os da América do Sul, e estão expandindo rapidamente a sua atuação na Amazônia, onde já têm presença ativa em cerca de metade dos municípios da Amazônia Legal brasileira.
Embora não haja números precisos, estima-se que ambos movimentam recursos da ordem das dezenas de bilhões de reais, como demonstrou a recente Operação Carbono Oculto contra o PCC, segundo a qual, entre 2020 e 2024, a facção paulista movimentou R$ 52 bilhões por meio de postos de combustível, fintechs e empresas de fachada.
Pelo menos no caso do CV, apenas cerca de 15-20% dos seus rendimentos provêm do tráfico de drogas, sendo o restante atribuído ao domínio territorial dos seus “micro-estados”, onde extorque a população e as empresas ali existentes, cobrando “pedágios”, cotas permanentes do comércio e serviços de transporte, além de controlarem o fornecimento de bujões de gás, serviços de internet e outros.
Nada diferente do que fazem os seus sócios transnacionais na Colômbia e no México.
Os recentes acontecimentos no Brasil também apontam para a cumplicidade imprescindível da criminalidade com o sistema financeiro, onde grandes volumes de dinheiro provenientes do narcotráfico e outras atividades ilícitas têm sido historicamente lavadas, e onde a globalização financeira multiplicou as possibilidades de lavagem de dinheiro. Sem falar em indícios crescentes de ligações com figuras poderosas da classe política nos três poderes da república, em uma teia obscura que se estende a vários setores da economia produtiva.
A extensão e o poderio adquirido por tais ramificações entre as estruturas institucionais, o sistema financeiro e as facções criminosas transnacionais torna virtualmente impossível que esse flagelo possa ser enfrentado adequadamente pelos Estados nacionais ibero-americanos, sendo imprescindível o estabelecimento de uma cooperação hemisférica para tanto. O perigo para toda a região é verdadeiramente existencial.
Imagem: TV Record.
