Gabriel Passos
Desde o início da campanha pela recuperação da Avibras, capitaneada pelo movimento Brasil Grande em conjunto com o sindicato dos trabalhadores da empresa, o objetivo tem sido restabelecer sua estabilidade financeira e reintegrá-la ao Ministério da Defesa, como elemento fundamental e estratégico da nossa política de defesa e dissuasão. Nem todos os brasileiros — mesmo entre os compatriotas comprometidos com a causa nacionalista — têm plena noção do valor que a Avibras Indústria Aeroespacial S.A. representa para o país. Mais do que uma empresa, a Avibras é um ativo estratégico, tecnológico e econômico de importância vital para o desenvolvimento soberano e para a política de defesa e dissuasão do Brasil.
Fundada em 1961, em São José dos Campos (SP), a Avibras nasceu com o propósito de desenvolver tecnologia nacional de ponta em setores de aeronáutica, defesa e engenharia de sistemas complexos. Ao longo de mais de seis décadas, construiu uma trajetória marcada por inovação, competência técnica e independência tecnológica, tornando-se uma das raras empresas do Hemisfério Sul com domínio integral sobre sistemas de artilharia de foguetes e mísseis.
Entre suas criações mais reconhecidas está o ASTROS (Artillery Saturation Rocket System) — um dos sistemas de lançadores de foguetes e mísseis mais respeitados do mundo. O ASTROS, adotado pelo Exército Brasileiro e exportado para diversos países, é símbolo de engenharia nacional de excelência, capaz de garantir ao Brasil poder de dissuasão compatível com grandes potências.
Além do ASTROS, a Avibras atua em projetos de mísseis de cruzeiro, veículos aéreos não tripulados (VANTs), veículos blindados, sistemas de comunicação e guiagem, e também no setor aeroespacial e energético, com tecnologias de propulsão e compósitos avançados. Essa diversidade tecnológica faz da empresa um núcleo de inovação de alto valor agregado, gerador de milhares de empregos qualificados e movimentador de bilhões de reais em sua cadeia produtiva.
No cenário internacional, a Avibras tem potencial para expandir ainda mais suas vendas e cooperações por meio de joint ventures e parcerias tecnológicas, fortalecendo a presença do Brasil no mercado global de defesa — um setor que, quando bem explorado, gera retorno econômico, diplomático e científico.
A campanha pela recuperação e reintegração da Avibras ao Ministério da Defesa é, portanto, muito mais do que uma questão empresarial: trata-se de um movimento em defesa da soberania nacional, da autonomia tecnológica e da capacidade estratégica do Brasil de se afirmar como potência independente e respeitada.
O Sistema de Artilharia de Foguetes para Saturação de Área ASTROS II foi concebido em 1981 e aprimorado nos dois anos seguintes. O projeto surgiu para atender a uma demanda do Iraque, então envolvido em guerra contra o Irã, que necessitava de uma arma capaz de conter e responder aos ataques maciços das forças iranianas.


Com alcance variável entre 9 e 90 quilômetros, o ASTROS II apresentava uma característica inédita até então: podia operar três calibres diferentes sobre a mesma plataforma, bastando apenas substituir os casulos de lançamento. Cada calibre possuía alcance e quantidade distintos — quanto maior o calibre, menor o número de foguetes disparados por cada unidade lançadora.
O financiamento fornecido pelo Iraque, que à época era grande aliado do Ocidente, foi essencial para viabilizar o projeto. Com apoio de satélites americanos, que forneciam informações sobre posições e deslocamentos das forças iranianas, o sistema demonstrou eficiência impecável em campo, contribuindo para equilibrar a situação militar na região.
A guerra, que se prolongou até 1988, resultou em enorme desgaste para ambos os lados, sem vencedores e com altíssimo custo em vidas e equipamentos militares. Para os fabricantes, entretanto, o conflito serviu como valioso campo de testes reais. Os resultados foram efetivos para o Iraque, que conseguiu frear a contraofensiva iraniana e estabilizar sua linha de defesa com o uso do sistema brasileiro. Ao todo, o Brasil forneceu 82 unidades do ASTROS II ao Iraque, consolidando a Avibras como uma das mais avançadas empresas do mundo na tecnologia de artilharia de foguetes.
Com o sucesso do sistema ASTROS II comprovado em combate, a Arábia Saudita também encomendou o equipamento, reconhecendo sua eficiência, versatilidade e valor estratégico. Esse novo contrato ampliou a presença internacional da Avibras e reforçou o prestígio da engenharia militar brasileira no cenário global.
Após a venda a Arábia Saudita, a empresa venderia ainda uma bateria do sistema ASTROS II ao exército do Qatar, por US$ 28 milhões.Exaurido pelos gastos na guerra contra o Irã, no primeiro semestre de 1987 o Iraque começou a falhar no pagamento de suas obrigações com a Avibras gerando uma cisão.
No início da década de 90, o Exército Brasileiro finalmente decide adquirir o Astros. Inicialmente cinco baterias de lançadores múltiplos e foguetes foram localizadas espalhadas pelo território nacional.
Para as missões de emprego solo-solo foram designadas a 1° Bateria LMF, baseada em Brasília (DF) e a 3° Bateria LMF, baseada em Cruz Alta (RS).
Pela Artilharia de Costa , foram alocados meios Astros a 1° Bateria do 10° GACosM, em Macaé (RJ ) , no 6° Gruponde Artilharia de Costa Motorizado – Grupo José Bonifácio – em Praia Grande (SP) , e no 8° grupo de Artilharia de Costa Motorizado – Grupo Presidente Ernesto Geisel, localizado em Niterói ( RJ ).
Em 2009 o governo alemão vetou a venda do chassi Mercedez Benz para a Avibras por entender que seu uso era tático ( combate ) e não logístico (transporte), o que obrigou a empresa a buscar um novo chassi.
O fabricante checo Tatra foi o escolhido, e o novo chassi na versão T-815-7 – 6×6 entregou um melhor desempenho em terrenos acidentados , surgindo assim a versão Mk-5 e posteriormente a versão Mk-6.
O ASTROS III manteve o conceito de modularidade e intercambialidade de calibres, característica que consagrou o projeto original, mas passou a empregar novos foguetes e mísseis de maior precisão, com alcance ampliado e capacidade de integração com sistemas modernos de navegação e direcionamento por GPS e inércia.

Além disso, o sistema foi adaptado para operar em cenários de guerra modernos, com integração digital entre as unidades lançadoras, veículos de comando
e controle e centros táticos. Essa evolução tecnológica posicionou o ASTROS III como um dos sistemas de artilharia mais modernos do mundo.
O míssil tático de cruzeiro (MTC) capaz de neutralizar alvos até 300 km;
O novo ASTROS AFC (Autonomous Firing Calculation) que é uma versão destinada a oferecer excelente custo-benefício, permitindo operar isoladamente ou em seção, sendo que sua lançadora possui maior poder de fogo e capacidade de calcular os elementos de tiro, efetuar o disparo e buscar abrigo (“Shoot & Scoot”), minimizando a exposição do Sistema AFC;
O C4ISTAR que é escalável de Batalhão à Divisão e baseado na experiência de décadas da AVIBRAS no Sistema de Comando e Controle do ASTROS, possuindo as interfaces para integração das funções de Inteligência, Vigilância, Busca de Alvo e Reconhecimento e sua respectiva ligação com Sistemas de Comando e Controle de escalões superiores;
A família de Sistemas de Mísseis terra-terra, ar-terra, mar-terra e antinavio;
E o ASTROS III, baseada em viatura 8×8, que terá o dobro do poder de fogo do ASTROS AFC e acumulará todo o legado tecnológico do ASTROS MK6, lançando foguetes balísticos, foguetes guiados, mísseis balísticos e mísseis táticos de cruzeiro.
Além do pioneirismo em balística tivemos no Brasil a Tectran Indústria e Comércio S.A., integrante do Grupo Avibras, foi criada em 1982 em São José dos Campos (SP) com o objetivo de produzir conjuntos mecânicos para os veículos terrestres que a Avibras desenvolvia. Seu primeiro projeto foi um caminhão pesado 6×6, inspirado em um modelo Mercedes-Benz importado, que serviu de base às cinco viaturas do sistema Astros II. O veículo contava com motor V8 Mercedes-Benz (284 cv), câmbio de cinco marchas com reduzida, suspensão tandem, cabine blindada e direção hidráulica, podendo operar em diferentes funções militares: lançador de mísseis, sistema diretor de tiro, remuniciador, comando e veículo de apoio.

Durante a década de 1990, a Tectran desenvolveu ainda uma picape 4×4 de ¾ t, preparada para transporte, comando, ambulância e para receber o lançador leve Astros Hawk. Apesar da profunda crise do início da década, a Avibras foi a única grande empresa bélica brasileira a sobreviver, mantendo em produção suas linhas militares (aeroespacial, telecomunicações, explosivos e veículos terrestres) e expandindo para o mercado civil por meio da Tectran e da Tectronic (posteriormente Powertronics).
Enquanto oportunidades para novos projetos militares diminuíam, o Grupo Avibras direcionou esforços para transporte e logística, beneficiando a Tectran, que em 1993 absorveu a linha de implementos rodoviários e coletores de lixo da FNV. A empresa passou a fabricar veículos para pátios ferroviários, portos, fundições e aciarias, além de carros-fortes, reboques e semirreboques.
O pioneiro Locotrator (1985), rebocador de até 900 t, possuía tração híbrida: dois eixos com rodas de aço e dois com pneus, permitindo operação sobre trilhos e fora deles. O sistema hidráulico de recolhimento dos eixos foi adaptado para viaturas rodoferroviárias menores, como picapes e caminhões. Outro projeto inovador, o
BisBus (1994), foi um ônibus Mercedes-Benz OF-1618 com carroceria Busscar, capaz de operar parcialmente sobre trilhos intermunicipais.
No setor de movimentação de materiais, a Tectran forneceu desde 1984 tratores TTA para a usina Alumar, plataformas e elevadores hidráulicos de 40 a 60 t, além de pórticos autopropelidos e caminhões-tratores roll on – roll off com motores Mercedes-Benz. No final de 1996, entrou no mercado de carrocerias blindadas para transporte de valores.
Apesar de superar a crise dos anos 90 no Brasil, muitas empresas Brasileiras de defesa faliram nessa década como a Engessa e a Imbel . A Tectran, no entanto, manteve suas linhas militares e logísticas, sendo absorvida pela Avibras no início do século XXI, com produção limitada aos veículos militares e ao Locotrator.
O Brasil passou a integrar recentemente o projeto do míssil A-Darter por meio da Força Aérea Brasileira (FAB). Nesse programa, a Avibras exerce um papel de destaque, juntamente com o DEPED (Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento), o Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e outras empresas responsáveis pela interface industrial — especialmente Mectron, Avibras e Opto Eletrônica.
Do lado da África do Sul, a parceira no desenvolvimento é a Denel Aerospace Systems. O investimento total do projeto é estimado entre US$ 100 e US$ 130 milhões, sendo que o Brasil arcará com metade desse valor.
O míssil A-Darter será utilizado nos caças JAS-39 Gripen da Força Aérea Sul-Africana e da FAB, além de equipar também os A-1M e F-5BR da Força Aérea Brasileira e os A-4BR da Marinha do Brasil.

Nos últimos anos, conflitos como Ucrânia x Rússia, Israel x Irã e Azerbaijão x Armênia evidenciaram uma profunda mudança na dinâmica da guerra moderna, especialmente nos campos da balística e do emprego de drones, tanto para ataque quanto para identificação e reconhecimento. Essas guerras mostraram que, mais do que o número de tropas, o que define a vantagem militar hoje é o domínio tecnológico — a capacidade de detectar, reagir e neutralizar o inimigo com precisão, agilidade e autonomia.
Nesse cenário, a Avibras Indústria Aeroespacial S.A. reafirma sua importância estratégica para o Brasil e sua defesa nacional. A empresa atua diretamente na pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que acompanham essas tendências globais, investindo em sistemas balísticos avançados e em veículos aéreos não tripulados (VANTs).
Dois de seus programas mais importantes refletem essa evolução: o ASTROS 2020 e o Programa Falcão. O ASTROS 2020, sucessor da consagrada família de sistemas ASTROS, representa o que há de mais moderno em artilharia de foguetes e mísseis táticos, com maior alcance, precisão e integração digital entre unidades de comando, sensores e drones. Já o Programa Falcão é um marco na tecnologia nacional de drones, voltado para reconhecimento, vigilância e ataque, demonstrando a capacidade brasileira de desenvolver soluções de ponta em um setor dominado por grandes potências.
Mais do que uma empresa, a Avibras é um patrimônio tecnológico e estratégico da Nação, símbolo da capacidade do povo brasileiro de criar, inovar e se defender com meios próprios. Seu fortalecimento e sua reintegração plena à estrutura de defesa nacional, com o apoio do Estado e da sociedade, são fundamentais para garantir que o Brasil continue soberano, independente e respeitado no concerto das nações
