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Os Estados Unidos promoveram a Cúpula da Pax Silica, realizada em 12 de dezembro, em Washington. Trata-se de uma iniciativa liderada pelo Departamento de Estado dos EUA para criar uma cadeia de fornecimento segura, resiliente e inovadora de materiais essenciais e tecnologias, desde minerais críticos e energia até indústria avançada, semicondutores, infraestrutura de IA e logística.
O nome da conferência faz alusão aos termos “pax” (paz e estabilidade, em latim) e “silica” (em referência ao silício usado nos chips). Historicamente, o termo “Pax Romana” é usado para se referir ao período de paz promovido nos primeiros séculos do Império Romano e “Pax Britannica”, ao período de paz experimentado na Europa no século XIX, após a derrota definitiva da França napoleônica.
Participaram do evento representantes do Japão, Coreia do Sul, Singapura, Holanda, Israel, Austrália, Emirados Árabes Unidos, Canadá e União Europeia. Ao fim, foi assinada uma declaração de compromisso com os seguintes pontos:
- O fortalecimento da segurança das cadeias de abastecimento de produtos essenciais à economia digital, desde minerais críticos até chips, IA e infraestrutura de dados.
- Reduzir dependências consideradas coercitivas, isto é, dependências econômicas ou tecnológicas percebidas como vulneráveis a pressões externas.
- Cooperar em pesquisa, desenvolvimento e produção, incluindo investimentos conjuntos em manufatura, infraestrutura digital e padrões tecnológicos.
- Promover ecossistemas tecnológicos confiáveis, interoperáveis e resilientes entre as nações parceiras.
Em termos geopolíticos, é possível dizer que se trata de uma iniciativa do governo Trump de isolar a China, tendo em vista os avanços que ela vem alcançando nesse campo, incluindo semicondutores, IA e infraestrutura digital. Sobretudo no que tange as terras raras, pois o gigante asiático é o maior produtor mundial e também líder no processamento desses elementos.
Além da China, a Índia também ficou de fora da conferência. Considerando o papel crescente deste país na indústria eletrônica, sua ausência talvez se explique pelo distanciamento político com os EUA observado desde o início da Guerra na Ucrânia, no que se refere às relações da Índia com a Rússia. De concreto, é notável a ausência dos membros fundadores dos BRICS.
Ainda no campo das implicações geopolíticas e geoeconômicas, no que movimentos como esse impactam o Brasil, escreveu Leonam Guimarães no portal Defesanet:
“Ao reunir um grupo seleto de países considerados ‘parceiros confiáveis’, a Pax Silica deixa implícito que o acesso às cadeias de maior valor agregado do século XXI será cada vez mais restrito. Para o Brasil, o problema não é político, mas estrutural. O país possui recursos minerais estratégicos e energia limpa em abundância, mas segue distante das etapas decisivas: refino avançado, manufatura de semicondutores, infraestrutura digital e aplicações industriais de IA.
“Nesse novo contexto, exportar commodities e importar tecnologia não é apenas uma limitação econômica; é uma vulnerabilidade estratégica. Energia limpa sem indústria associada não gera poder, e minerais críticos sem transformação local produzem dependência, não autonomia.
“A Pax Silica deve ser lida menos como um gesto hostil e mais como um alerta. O mundo está reorganizando suas cadeias produtivas e decisórias. Permanecer fora desse processo não preserva soberania; ao contrário, reduz a capacidade de influenciar o próprio futuro.
“A escolha que se impõe ao Brasil é clara: ou o país articula uma estratégia integrada de energia, minerais, indústria e tecnologia, ou aceitará um papel periférico em uma economia global cada vez mais seletiva. O tempo para decidir está se esgotando.”
Em que pese algumas falas isoladas do governo brasileiro de “agregar valor as cadeias produtivas de terras raras”, considerando as descobertas de novas jazidas pelo país, o tema ainda não ganhou centralidade que merece na agenda política nacional. Centrou sua iniciativa diplomática em um evento badalado mais inócuo politicamente como a COP30, ignorado pelos EUA e visto com (muita) desconfiança pelos demais membros dos BRICS e até pelos países africanos.
Enquanto isso, o governo Trump, por meio de seus órgãos de fomento, continuam a aumentar presença na mineração das terras raras, em acordos que mais beneficiam os EUA que o Brasil.
Imagem: Departamento de Estado dos EUA.
