A Estratégia de Segurança Nacional do governo de Donald Trump assinala uma ruptura crucial com o “globalismo” e tem profundas implicações para a Europa e o Hemisfério Ocidental.
Movimento de Solidariedade Ibero-americana
A técnica renascentista do claro-escuro, que cria uma hierarquização das imagens retratadas com um emprego seletivo de luzes e sombras, é uma metáfora apropriada para um exame da recém–lançada Estratégia de Segurança Nacional (ESN) do governo de Donald Trump. Em contraste com as suas equivalentes “iluministas” dos governos antecessores, inclusive o do republicano George W. Bush, com sua ênfase na promoção de valores universais ditados pelos EUA – a “cidade brilhante no alto da colina” –, a nova ESN rejeita os valores do universalismo liberal “globalista” e destaca aplicações concentradas do poderio estadunidense, em especial, no Hemisfério Ocidental.
A clareza do documento enfoca diretamente a rejeição do “globalismo” e seus pilares institucionais – livre comércio, ambientalismo, transição energética baseada na descarbonização da economia e identitarismo –, aos quais atribui o enfraquecimento da classe média e da base industrial estadunidenses, além do declínio civilizatório da Europa supranacional da União Europeia.
“Os EUA incentivam os seus aliados políticos na Europa a promover essa revivificação de espírito, e, de fato, a crescente influência de partidos patrióticos europeus é motivo de grande otimismo”, enfatiza o documento, depois de golpear duramente as elites de Bruxelas.
O texto é igualmente implacável com as elites domésticas: “(…) Elas amarraram a política estadunidense a uma rede de instituições internacionais, algumas delas movidas por um antiamericanismo aberto e muitas por um transnacionalismo que busca explicitamente dissolver a soberania estatal individual. Em suma, nossas elites não apenas perseguiram um objetivo fundamentalmente indesejável e impossível, mas, ao fazê-lo, debilitaram os próprios meios necessários para atingir aquele objetivo: o caráter da nossa nação,
sobre o qual foi construído o seu poder, riqueza e decência.”
Um elemento-chave é a primazia das nações: “A unidade política fundamental do mundo é e permanecerá sendo o Estado nacional… O mundo funciona melhor quando as nações priorizam
os seus interesses. Os EUA colocarão os nossos próprios interesses em primeiro lugar e, em nossas relações com outras nações, as incentivam a também priorizar os seus próprios interesses. Nós
apoiamos os direitos soberanos das nações contra as incursões solapadoras das soberanias das mais intrusivas organizações transnacionais, além da reforma dessas instituições, de modo que possam apoiar, em vez de obstaculizar a soberania individual, e promover os interesses estadunidenses.”
Da mesma forma, redefine o anterior rótulo de “potências revisionistas” aplicado à China e à Rússia. A primeira passa a ser uma competidora com a qual se pretende uma “relação econômica genuinamente mutuamente vantajosa”. Com a segunda, os EUA deverão trabalhar para restabelecer uma “estabilidade estratégica ao longo da massa continental eurasiática”.
Na esfera econômica, o conceito primordial é o de segurança econômica, baseado em: comércio equilibrado; reindustrialização; acesso seguro a cadeias de suprimentos e materiais críticos; dominância energética (com a rejeição das “desastrosas políticas de ‘carbono zero’ e de mudanças climáticas”, além da promoção dos combustíveis fósseis e da energia nuclear); fortalecimento da base industrial de defesa; e preservação da dominância no setor financeiro.
Aqui, cabe destacar a menção ao secretário do Tesouro Alexander Hamilton, pai intelectual do Sistema Americano de Economia Política, conjunto de diretrizes adotado durante a maior parte da história dos EUA, proporcionando a sua consolidação como a maior potência econômica do mundo, e que Trump está se empenhando em reviver em considerável medida.
O aspecto espiritual, cuja presença num manifesto estratégico pode parecer estranha a muitos, recebeu uma consideração: “(…) Nós queremos a restauração e revigoração da saúde espiritual e cultural estadunidense, sem a qual a segurança a longo prazo é impossível.
A citação não é retórica gratuita. Apesar de Trump não ser notório por pendores religiosos, ele tem se empenhado em restaurar os valores culturais associados à tradição cristã ocidental dos EUA, debilitados por décadas de políticas e influências identitárias. Em 12 de outubro, renomeou exclusivamente o feriado como Dia de Colombo (que Biden havia compartilhado com o nome Dia dos Povos Indígenas), celebrando o navegador e os reis espanhóis Fernando e Isabel. E já demonstrou várias vezes o seu
apreço pela devoção a Santa Maria como um importante elemento cultural estadunidense.
Por sua vez, para o Hemisfério Ocidental, a clareza reside na ênfase com que a ESN coloca toda a região como área de influência dos EUA, em evidente oposição à penetração da China:
“Nós negaremos no nosso hemisfério a competidores não-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração de senso comum e potente do poderio e das prioridades estadunidenses… Nós alistaremos amigos estabelecidos no hemisfério para controlar a emigração, interromper fluxos de drogas e reforçar a estabilidade e segurança em terra e no mar. Nós expandiremos cultivando e reforçando novos parceiros, enquanto reforçamos o apelo da nossa nação como o parceiro econômico e de segurança de escolha do hemisfério.”
De fato, a ESN sepulta a ordem hemisférica pós-Malvinas, quando os EUA de Ronald Reagan apagaram o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) em favor do Reino Unido no confronto com a Argentina. Ordem transmitida ao hemisfério pelo famigerado Diálogo Interamericano, promotor das
políticas de debilitação dos Estados nacionais soberanos ibero-americanos, implementadas por numerosos membros que assumiram cargos de liderança em seus países (entre eles, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Marina Silva).
A zona de sombras se situa na definição de como será o “Corolário Trump”, se mais parecido com a Doutrina Monroe antiimperialista original, o imperialista “Corolário (Theodore) Roosevelt” ou a Política de Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt. Esta última, com seus benefícios para toda a região, Brasil em particular, tendo Getúlio Vargas a empregado para estabelecer importantes acordos de cooperação com
os EUA, com destaque para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional.
As sombras recaem também sobre a maneira como os países hemisféricos abordarão o desafio de propor aos EUA o estabelecimento de uma ordem de cooperação para o desenvolvimento com vantagens compartilhadas. Para tanto, é um pré-requisito que enfrentem a contento as suas contradições internas, que tanto têm dificultado o seu próprio desenvolvimento e, não menos, o estabelecimento de relações não maniqueístas de submissão ou antagonismo aos EUA.
