Christian Cirilli
Mesmo assumindo o risco que implica escrever a tão poucas horas dos acontecimentos, o ataque e a inserção de forças especiais norte-americanas exalam mais o aroma de traição interna do que o de uma operação militar impecável.
Chama poderosamente a atenção que o presidente Nicolás Maduro tenha sido o único detido e sequestrado, quando não apenas ele, mas a totalidade da cúpula militar e política era apontada como “parte do regime narcoterrorista”, e sobre vários deles pesavam inclusive recompensas vultosas.
Surgem perguntas impossíveis de responder com certeza em tão curto prazo. Eu mesmo havia previsto a possibilidade de uma operação especial, rápida e contundente. No entanto, também supus que o chavismo conservava um núcleo duro disposto a resistir, e que qualquer tentativa de intervenção derivaria em confrontos sérios e em pesadas baixas para o invasor.
Sem ir mais longe, também em um 3 de janeiro, mas de 1990, foi finalmente detido o ditador panamenho — e agente da CIA — Manuel Noriega, após uma invasão terrestre esmagadora que incluiu desembarques de helicópteros, bombardeios aéreos e o uso intensivo de blindados e artilharia. Tratou-se da Operação “Causa Justa”, desenhada para cortar as asas do indisciplinado Noriega. O Panamá, com muito menos recursos humanos e materiais, vendeu caríssima sua derrota e ofereceu uma resistência feroz. A priori, nada parecido se observa hoje na Venezuela, ainda que o país conte com reservas suficientes para organizar uma defesa respeitável.
Resulta, então, particularmente chamativo que tropas especiais norte-americanas tenham ingressado nada menos que em Caracas, uma capital densamente povoada e — em teoria — fortemente defendida, com fama de “pesada”, como se avançassem por uma autoestrada desimpedida. E ainda por cima sem um manto de escuridão absoluta, perfeitamente distinguíveis.
Pergunto-me como é possível que o presidente Maduro tenha sido tão rapidamente identificado e extraído sem que tenha havido, pelo que se sabe até agora, qualquer resistência por parte de seu anel de segurança, que deveria ter sido leal e eficaz.
Também me pergunto como é possível que Diosdado Cabello, uma das figuras mais extremas do chavismo, tenha sobrevivido ao ataque e circule pelas ruas de Caracas — ele sim! — acompanhado de um grupo de homens armados até os dentes, poucas horas após os fatos, quase com a certeza de que “não o tocariam”. Mais estranho ainda é o que ele diz: acontece que agora precisam estar “alertas” porque antes disso “o povo dormia”. Fala em tom literal ou metafórico?
O mesmo vale para o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, exigindo desde um palanque, com a bandeira venezuelana atrás, em total estado de calma.
Idem para a vice-presidente Delcy Rodríguez, que se limita a exigir — apenas 4 horas depois do rapto de Maduro! — uma “prova de vida” do presidente, como um Lando Calrissian suplicando a Darth Vader que não mate Han Solo e se contente em deixá-lo congelado em carbonita.
E as centenas e centenas de mísseis antiaéreos portáteis Igla que Chávez comprou da Rússia para serem usados especificamente nesta circunstância? Não foram distribuídos entre a tropa? É compreensível que interferências eletrônicas ou ataques a nós de radar e comunicações possam cegar sistemas complexos de guiagem por radar. Mas os Igla exigem apenas um operador e a confirmação do sensor infravermelho! São sistemas do tipo “dispare e esqueça”. Os helicópteros eram visíveis a olho nu. Por que não se ativou nem um sequer? Não estavam posicionados nas imediações da residência presidencial ou do local onde Maduro se encontrava? Para que os possuem, então?
Esses Igla poderiam ter derrubado, um após o outro, os pesados Chinook ou os vulneráveis Black Hawk. Se utilizados adequadamente, teriam provocado um massacre. Os somalis fizeram muito mais com simples AK-47 em Mogadíscio, em 1993 (episódio que posteriormente daria origem ao filme “Black Hawk Dawn”, de Ridley Scott).
Tudo indica que as tropas venezuelanas estavam cientes do que estava acontecendo e, ainda assim, não responderam. O país estava em alerta de combate e não combateu!
As perguntas se multiplicam à medida que emergem vídeos e declarações. Teria sido a “entrega” de Maduro um sinal das Forças Armadas venezuelanas para negociar uma saída com impunidade em caso da posse de um futuro governo liberal? A Revolução se autodestruiu, então? Ou teria sido uma forma de se livrar do inflexível Maduro e negociar por conta própria? Terá (finalmente!) María Corina Machado aquilo que lhe faltava… soldados leais à sua figura para encabeçar uma suposta “reconciliação nacional”? Ou Maduro teria se entregue — como sugerem meios britânicos como o insidioso Sky News — para salvaguardar o país de uma destruição total? (o que parece bastante inverossímil)
A hipótese mais próxima da realidade, no entanto, é que Maduro não tenha sido sequestrado como resultado de uma operação militar brilhante — cirúrgica, imaculada — mas que tenha sido ENGANADO e ENTREGUE por sua própria cadeia de proteção e, provavelmente, por alguns de seus colegas do âmbito político. A ausência de resposta militar sugeriria a existência de uma ordem explícita para não agir, apesar das fanfarronices posteriores.
É evidente que, enquanto os Estados Unidos deslocavam meios, realizavam demonstrações de força e executavam fintas de bombardeio, a CIA operava nas sombras, contatando de maneira sub-reptícia tanto quadros intermediários quanto, fundamentalmente, a cúpula militar. Essa leitura se torna cada vez mais consistente com o passar das horas.
De fato, analistas como Scott Ritter têm sustentado reiteradamente que o verdadeiro golpe de misericórdia não seria dado pelas forças armadas norte-americanas, mas pela inteligência, assinalando que o desfecho desse tipo de operação costuma ser definido muito antes do primeiro disparo.
Sinceramente, a ausência total de uma batalha urbana — em um contexto de meses de preparação militar, com uma suposta alerta máxima para repelir ataques, e nada menos que na cidade capital do país — constitui um fato profundamente anômalo e perturbador.
Não se trata simplesmente de uma operação militar bem executada, mas de um ato de desestabilização política de enorme gravidade, com traições internas incluídas, potencialmente muito mais devastador do que um bombardeio maciço. Os danos produzidos por uma ruptura desse tipo são estruturais e duradouros. Até os leais ficam “no mesmo lamaçal, todos manuseados” (como diz o tango Cambalache).
A Revolução Bolivariana exibe, pela primeira vez de forma explícita, uma fratura interna considerável. E no centro dessa fissura, inevitavelmente, aparece a figura de um Judas: alguém com poder real, acesso privilegiado e capacidade de decisão, que optou por cruzar a linha no momento decisivo. Não esqueçamos que havia uma recompensa de 50 milhões de dólares…
Essa figura — seja quem for — detém hoje a chave da transição. A Venezuela atravessa um dos momentos mais convulsionados e incertos de sua história recente. O verdadeiro cenário de disputa já não é militar, mas político e negociador. Será por isso que Trump dá por encerrada a intervenção? O governo chavista e as forças armadas seguem praticamente intactos! Então qual é o objetivo não declarado? Obter concessões petrolíferas mantendo vivo o chavismo?
Daqui em diante, será preciso observar com atenção que tipo de “negociações” se colocam em marcha, quem participa delas e, sobretudo, quem fica de fora. Nada garante, de fato, que María Corina Machado tenha um destino em Miraflores. Sua utilidade pode ter sido conjuntural, não estrutural. Chama a atenção que não haja distúrbios nas ruas de Caracas… pelo contrário, existe uma tensa calma… alguma ordem para não agravar ainda mais a situação em função de uma mesa de transição?
Não se pode descartar que estejamos assistindo aos primórdios de uma nova liderança, menos ideologizada, mais funcional aos equilíbrios regionais e sensivelmente mais inclinada aos interesses norte-americanos. Uma liderança que não necessariamente emerja da oposição tradicional, mas dos próprios interstícios do aparato de poder que hoje se reconfigura.
