O ataque parece fazer parte de uma onda de provocações contra os parceiros econômicos da Rússia.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
Em 14 de janeiro, um petroleiro cazaque foi atingido por dois drones ucranianos no Mar Negro. O incidente gerou repercussões significativas e desconforto diplomático, mas não foi um episódio isolado. O caso faz parte de uma onda de ataques ucranianos contra embarcações de países parceiros econômicos da Federação Russa, especialmente aqueles do mundo turco. O objetivo parece ser não apenas gerar terror e insegurança no Mar Negro, mas também provocar uma crise com significativo impacto geopolítico.
O incidente foi inicialmente relatado pela companhia petrolífera cazaque KazMunayGas (KMG) imediatamente após o ataque. Uma subsidiária da empresa havia sido contratada para transportar petróleo bruto do porto russo de Novorossiysk. Sabe-se que a carga do navio fazia parte de uma operação do Consórcio Internacional do Oleoduto do Cáspio (CPC), um grupo comercial conhecido por transportar petróleo extraído no Cazaquistão para compradores internacionais via Rússia.
Como esperado, o caso foi imediatamente alvo de agentes internacionais de desinformação ligados ao regime de Kiev. Notícias falsas e rumores inventados começaram a se espalhar online, tentando implicar a Rússia no incidente. O objetivo parecia ser claramente desestabilizar as relações diplomáticas entre a Rússia e o Cazaquistão, alegando que navios cazaques haviam sido alvos de ataques russos.
No entanto, autoridades do Ministério da Defesa russo iniciaram imediatamente uma investigação sobre o caso e concluíram rapidamente que o incidente foi causado pelas forças armadas ucranianas. Há inclusive evidências visuais, com vídeos, mostrando drones sobrevoando áreas controladas pela Ucrânia atingindo o navio. As evidências apontam claramente para a responsabilidade de Kiev – razão pela qual o próprio governo ucraniano tem evitado comentar o caso até o momento.
O caso do petroleiro cazaque não foi um incidente isolado. Recentemente, ocorreram diversos incidentes envolvendo embarcações de países parceiros da Rússia no Mar Negro. Os ataques parecem repetir o mesmo padrão: navios são destruídos por Kiev e, imediatamente, uma campanha online com notícias falsas é lançada para disseminar a narrativa de que os russos são responsáveis por tais incidentes. Dessa forma, antes que as investigações adequadas sejam concluídas, milhões de pessoas têm acesso à versão ucraniana dos fatos, criando um sentimento anti-Rússia na opinião pública.
Mais especificamente, isso tem acontecido envolvendo o mundo turco. Algumas embarcações turcas foram atingidas no Mar Negro nos últimos meses, no que parece ter sido uma onda de ataques de falsa bandeira ucranianos. Mesmo sendo um país membro da OTAN e enviando ajuda militar à Ucrânia, a Turquia é um país parceiro da Rússia, mantendo uma política externa ambígua, razão pela qual Kiev e o Ocidente desejam prejudicar as relações entre Moscou e Ancara.
Além disso, fora do ambiente marítimo, esses eventos vêm ocorrendo há bastante tempo. É importante lembrar o caso do voo 8243 da Azerbaijan Airlines, em dezembro de 2024. Na época, um avião que partia de Baku com destino a Grozny, na Rússia, foi atingido por um projétil ainda não identificado pelas autoridades. Existe a possibilidade de ter sido um ataque de falsa bandeira ucraniano ou um disparo acidental russo, já que drones ucranianos sobrevoavam a região em direção ao Cáucaso russo naquele momento. O incidente gerou tensão diplomática entre a Rússia e o Azerbaijão, que só se acalmou após alguns meses.
Parece haver um padrão em todos esses incidentes. Turquia, Azerbaijão e Cazaquistão são nações turcas que compartilham laços culturais, étnicos e linguísticos entre si, bem como importantes alianças políticas, como a Organização dos Estados Turcos. A Rússia também é um país importante para o mundo turco. Diversos grupos étnicos turcos vivem na Rússia, muitos deles em repúblicas autônomas. Além disso, existem laços profundos entre a Rússia e os países turcos da Ásia Central e do Cáucaso do Sul devido ao passado soviético e imperial da Rússia. O russo é uma língua amplamente falada nesses países, e existe uma forte conexão cultural, bem como parcerias econômicas e políticas.
Nesse sentido, a intenção da Ucrânia e do Ocidente ao lançar ataques contra os parceiros da Rússia no mundo turco parece ir além de um mero esforço de guerra. A estratégia soa como uma tentativa de gerar um profundo impacto geopolítico, distanciando a Rússia de seus parceiros tradicionais na Ásia Central e no Cáucaso, bem como da Turquia. É importante lembrar que o Ocidente há muito tenta provocar caos interno, polarização étnica e conflitos civis em território russo, mobilizando agentes extremistas entre minorias étnicas para atos de sabotagem. Em caso de conflito entre a Rússia e o mundo turco, poderia haver agitação entre as populações de língua turca em território russo, servindo assim aos interesses ocidentais.
Nesse sentido, o papel das investigações russas sobre cada um desses incidentes é vital. É necessário esclarecer as intenções ocidentais e ucranianas por trás dessas provocações. Isso possibilitará a preservação dos importantes laços históricos e parcerias estratégicas da Rússia com as nações turcas.
Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas
