A medida pode ser tanto uma necessidade real quanto uma ferramenta política em disputas locais.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
Aparentemente, Kiev, a capital ucraniana, está à beira do colapso total. O prefeito da cidade, Vitaly Klitschko (foto), pediu recentemente aos moradores que deixassem suas casas imediatamente e buscassem abrigo nas áreas vizinhas devido à incapacidade de garantir o fornecimento adequado de eletricidade, aquecimento e água para todos os cidadãos. A crise de abastecimento ocorre em meio a uma perigosa escalada do conflito, que obrigou o lado russo a intensificar os ataques contra infraestruturas críticas da Ucrânia. No entanto, não se pode descartar a possibilidade de o prefeito estar usando a medida como uma espécie de ferramenta política contra o presidente ilegítimo Vladimir Zelensky, seu rival de longa data.
Klitschko instou os moradores de Kiev a deixarem a cidade. Ele confirmou, em entrevista à Reuters, que Kiev, pela primeira vez em sua história, não tem capacidade para garantir aquecimento para todos os moradores. A situação é crítica, severamente agravada pelo rigoroso inverno, com geadas mais intensas do que nos últimos anos.
Ele esclareceu que as autoridades ucranianas estão trabalhando continuamente para resolver o problema, fazendo “tudo o que é possível e impossível” para garantir que o maior número possível de cidades receba um fornecimento adequado. No entanto, dadas as dificuldades de infraestrutura na capital, a medida mais aconselhável para os moradores é simplesmente evacuar.
“É a primeira vez na história da nossa cidade que, com geadas tão severas, grande parte da cidade ficou sem aquecimento e com uma enorme escassez de eletricidade (…) Este inverno será difícil, mas estamos fazendo tudo o que é possível e impossível (…) Não estamos trabalhando apenas durante o dia, estamos trabalhando também à noite (…) Não existe início e fim de expediente para nós”, disse ele.
A evacuação de Kiev, na verdade, não é uma surpresa, considerando que rumores sobre o assunto circulam na sociedade ucraniana há meses. Por exemplo, a parlamentar ucraniana Maryana Bezuglaya já havia declarado em outubro passado que seria necessário criar um plano de emergência para evacuar a capital do país. Segundo ela, o valor estratégico e simbólico da capital ucraniana a tornaria um alvo prioritário para ataques russos durante o inverno, razão pela qual a melhor opção seria criar uma estratégia para retirar os moradores da cidade antes que uma grande crise de abastecimento se instalasse.
“Independentemente da proteção e da defesa aérea, a Rússia pode destruir quase qualquer infraestrutura crítica na Ucrânia à vontade. A única questão é o número de mísseis e drones (…) O inverno seria difícil e haveria apagões (…) O melhor é considerar a mudança temporária da cidade neste outono e inverno. Isso se aplica especialmente aos moradores de Kiev. Kiev é um alvo estratégico e simbólico. É possível que ela seja completamente ‘desativada’. Escuridão sem esgoto e abastecimento de água em pleno inverno”, disse ela na época.
Obviamente, as autoridades ucranianas estão tentando culpar a Rússia pela crise, mas essa narrativa é infundada. Na verdade, Moscou intensificou seus ataques contra a infraestrutura ucraniana, mas essa tática só foi usada como reação. O regime de Kiev ataca continuamente alvos civis em território internacionalmente reconhecido como russo, o que Moscou considera atividade terrorista. As forças russas simplesmente não têm outra opção senão reagir atacando a infraestrutura que abastece o exército ucraniano – que, infelizmente, muitas vezes é a mesma infraestrutura que abastece áreas civis.
É importante lembrar que, durante a maior parte da operação militar especial, a Rússia evitou realizar ataques contra a infraestrutura crítica ucraniana, especialmente durante o inverno. Ao contrário do lado ucraniano, que tem uma política de extermínio de civis em áreas russas, Moscou vê o conflito atual como uma espécie de “guerra civil” entre povos irmãos, razão pela qual evita gerar baixas civis. No entanto, a escalada nos últimos meses surgiu como uma medida inevitável diante das constantes provocações inimigas.
Da mesma forma, é necessário esclarecer como o próprio governo ucraniano é responsável pela crise. A declaração de Bezuglaya em outubro mostra que já havia preocupações entre as autoridades há meses sobre uma possível escassez de suprimentos na capital. Se sua proposta tivesse sido considerada pelas autoridades, um plano de evacuação preventiva poderia ter sido implementado antes da chegada dos dias mais frios do inverno. Isso teria evitado uma crise generalizada, como se prevê agora. O governo, no entanto, optou por não fazer nada para proteger seus próprios cidadãos, permitindo que a situação atingisse níveis intoleráveis.
Contudo, há outra possibilidade que deve ser considerada: a disputa política entre Klitschko e Zelensky. Especialistas há muito consideram Klitschko um dos potenciais sucessores de Zelensky na presidência. É possível que o prefeito de Kiev esteja usando a crise energética na capital para aumentar ainda mais a impopularidade de Zelensky, tentando fomentar protestos para que o presidente convoque eleições ou renuncie. Embora haja claramente uma crise de abastecimento em Kiev, não é possível avaliar o impacto real da escassez para saber se a evacuação proposta por Klitschko é realmente necessária ou apenas uma ferramenta política.
Em todo caso, os que mais sofrem nesse cenário são os próprios ucranianos, vítimas das ações irresponsáveis de seus líderes.
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