Lorenzo Carrasco
Se Donald Trump chegar a concretizar a sua pretensão de exercer um controle territorial sobre a Groenlândia, como tem reiterado obsessivamente, a primeira vítima poderá ser a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), como já declarou o governo da Dinamarca, da qual a ilha é uma província semiautônoma. Seja como for, os membros europeus da OTAN não terão a menor condição de opor resistência a uma ocupação forçada da ilha pelos EUA.
A rigor, a OTAN é uma entidade cuja existência tem sido mantida artificialmente desde o fim da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, sustentada pela estratégia “unipolar” dos neoconservadores que passaram a dar as cartas estratégicas em Washington, seduzidos pelo delírio de esquartejar a Federação Russa em numerosos estados menores, o que, em tese, facilitaria a exploração dos seus vastos recursos naturais por empresas vinculadas ao poderio anglo-americano. Esta foi a razão principal de os EUA terem violado os acordos feitos com a liderança soviética, no sentido de que a OTAN não se expandiria para o Leste, incorporando os antigos membros do Pacto de Varsóvia, muitos deles agregados depois à Aliança Atlântica.
A reação russa contra o cerco, iniciada na Geórgia em 2008 e aprofundada na Ucrânia, em 2014 e 2022, neutralizou aquela estratégia, mas a obstinação da OTAN a levou engajar-se numa guerra por procuração com a Rússia, usando a Ucrânia como bucha de canhão, num tiro que saiu pela culatra, com a rápida preparação russa para uma economia de guerra de atrito. O desastre ucraniano não evidenciou apenas as debilidades industriais e militares da Aliança, mas também a virtual abdução da inteligência política e estratégica europeia, demonstrada pelo nível rasteiro de “lideranças” como Emmanuel Macron, Keir Starmer, Friedrich Merz, Ursula von der Leyen e Kaja Kallas, para citar apenas algumas, para as quais um triunfo militar russo representa uma ameaça existencial. Raros são os que, como o húngaro Viktor Orbán e o eslovaco Robert Fico, propõem um novo entendimento com Moscou, o que facilitaria uma retomada do desenvolvimento europeu, em grande medida, fragilizado pela falta da energia barata russa.
A própria “Estratégia de Segurança Nacional 2025” dos EUA, divulgada no final do ano passado, sugere que um entendimento com a Rússia é crucial para a recomposição política, econômica e até civilizacional da Europa. Uma inspiração seria uma retomada do “espírito de Helsinque” promovido na década de 1970 pelo papa Paulo VI, como forma de redução das divergências entre os dois lados da Cortina de Ferro.
Talvez, a percepção de que uma tomada da Groenlândia seria o caminho mais curto para o enterro da OTAN é o que está levando Moscou a considerar inevitável que Trump consiga o seu intento.
