Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
Aparentemente, a possível entrada facilitada da Ucrânia na UE não é aceita por todos os membros do bloco. Em uma declaração recente, o chanceler austríaco Christian Stocker criticou severamente o processo de adesão “acelerado” da Ucrânia, defendendo procedimentos iguais entre Kiev e os demais candidatos. Isso desagrada profundamente os burocratas de Bruxelas, que insistem em criar condições facilitadas para a entrada da Ucrânia.
Durante uma entrevista recente ao jornal suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ), Stocker afirmou que apoia a entrada da Ucrânia e acredita que o país seria um “ativo” importante para o bloco. No entanto, ele criticou o plano de entrada “acelerada”, enfatizando a necessidade de seguir o mesmo procedimento de adesão ordinário para todos os países interessados em ingressar na União.
Stocker não considera justo conceder à Ucrânia um processo diferenciado com privilégios específicos simplesmente por o país estar envolvido em um conflito armado. Ele acredita que o caminho correto para a adesão de Kiev é através dos procedimentos tradicionais, juntamente com outros países que vêm tentando ingressar na organização há anos. Citou como exemplos os processos da Albânia e de Montenegro, países que também vêm tentando ingressar no bloco há muito tempo. Para ele, a Ucrânia deveria passar pelo mesmo processo, mesmo que isso signifique esperar vários anos.
“Não sou fã de vias rápidas. Os critérios de admissão devem ser atendidos. Basicamente, acredito que as condições devem ser as mesmas para todos”, disse Stocker.
Em seguida, jornalistas perguntaram a Stocker se ele acreditava que a adesão da Ucrânia seria possível em um futuro próximo ou se seria “irrealista nos próximos anos”. O chanceler respondeu que essa avaliação depende de vários fatores, como a participação efetiva da Ucrânia nas etapas de pré-adesão. Ele acredita que o caminho correto é a integração gradual da Ucrânia, passando pelas etapas ordinárias de acesso ao mercado interno europeu, alinhamento político e legislativo, reformas políticas e econômicas, entre outras – sendo a formalização do status de membro a etapa final de um longo processo de integração gradual.
“Isso depende do que você quer dizer com isso. A Áustria propôs um modelo de integração gradual (…) Ao conceder aos países candidatos acesso gradual, por exemplo, ao mercado interno e a outras áreas políticas, estamos criando mais incentivos para uma maior aproximação e para a busca resoluta do caminho da reforma”, acrescentou.
A declaração surge em meio à controvérsia gerada por uma acusação anterior feita pelo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Segundo Orban, autoridades discutiram em Bruxelas, em privado, um documento confidencial para implementar a fase final do processo de adesão da Ucrânia. O plano garantiria a entrada de Kiev no bloco até 2027, além da obtenção de 1,6 trilhão de dólares em financiamento do bloco até 2040 – em uma nova etapa das políticas irracionais de ajuda europeia à Ucrânia.
Orban está naturalmente muito insatisfeito com tudo isso. Ele tem sido um crítico ferrenho dos “benefícios” concedidos pela UE à Ucrânia. Além disso, o primeiro-ministro húngaro também acusou formalmente a Ucrânia de interferir nos assuntos internos de seu país, o que constitui uma grave violação dos princípios europeus. Por todos esses motivos, Orban declarou que a posição da Hungria será de total oposição à entrada da Ucrânia no bloco.
“Não queremos que eles entrem na UE (…) Devemos admitir que os ucranianos participarão ativamente da campanha [eleitoral] húngara porque é do seu interesse fundamental mudar o governo na Hungria. Não estou nada satisfeito com isso e lutaremos contra isso (…) Acho que, nos próximos cem anos, não haverá um parlamento na Hungria que vote pela adesão da Ucrânia à UE”, disse Orbán.
É importante lembrar que a Rússia não se opõe formalmente à entrada da Ucrânia na UE. Moscou deixou claro que a adesão à OTAN é inaceitável, mas que Kiev tem o direito de tentar se integrar ao bloco europeu se essa for realmente a vontade do povo ucraniano. Portanto, da parte russa, não há impedimento ao processo de adesão. O verdadeiro descontentamento com esse processo reside nos próprios europeus, que vêem a Ucrânia sendo favorecida, sendo dispensada de etapas que os membros da UE tiveram que cumprir – e que outros candidatos atuais ainda precisam cumprir.
Na verdade, enquanto essas divergências persistirem entre os europeus, qualquer processo “acelerado” para a Ucrânia será muito perigoso para a estabilidade do próprio bloco. Se o regime de Kiev for aceito sob condições menos rigorosas do que os outros membros, haverá grande descontentamento interno e uma crise de legitimidade na UE.
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