Impressions from the World Economic Forum Annual Meeting 2026 in Davos-Klosters, Switzerland, 19 January. Copyright: World Economic Forum/CHeeney
Cem Gürdeniz, contra-almirante reformado da marinha turca e analista geopolítico
O fim da Pax Americana, estabelecida após 1945, foi oficialmente reconhecido tanto pelos líderes do capital financeiro quanto pelos dirigentes eleitos reunidos em Davos 26.
O Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2026, em Davos — que há meio século funciona como centro de formulação de visões e doutrinas do capitalismo global — ocorreu entre 19 e 23 de janeiro, sob o tema “Um Espírito de Diálogo”.
No que pode ser considerado o encontro mais significativo de sua história, o fim da Pax Americana estabelecida após 1945 foi oficialmente reconhecido tanto pelos líderes do capital financeiro quanto pelos chefes de Estado herdeiros do legado colonial-imperial europeu, notadamente França, Alemanha e Reino Unido.
Outro ponto reconhecido de forma aberta foi o fim da globalização e do neoliberalismo. Representantes do capital financeiro enfatizaram que as elites políticas e econômicas perderam a confiança do público e admitiram que a ordem neoliberal chegou a um estágio de colapso devido à insustentabilidade da desigualdade de renda.
Os políticos, por sua vez, reconheceram que o direito vem sendo cada vez mais substituído pela força e que a chamada ordem internacional baseada em regras é, em parte, uma ficção, já que as grandes potências suspendem regras sempre que isso atende aos seus interesses. Entre essas declarações, talvez a mais perturbadora para Donald Trump tenha vindo do Canadá.
O primeiro-ministro canadense — explicitamente incluído por Trump no Hemisfério Ocidental em sua doutrina de segurança nacional revisada e abertamente ameaçado — reconheceu que a narrativa da ordem baseada em regras é fictícia. Ele afirmou que finanças, comércio, energia e cadeias de suprimentos já não funcionam como mecanismos de benefício mútuo, mas como instrumentos de pressão e de militarização econômica, e que o mundo ocidental não está passando por uma transição, mas por uma ruptura aberta. Isso, na verdade, era um resultado inevitável das realidades geopolíticas e dos interesses do capital financeiro.
A aceitação forçada da retração dos EUA já era evidente
Os Estados Unidos já não possuem a capacidade geopolítica de moldar o mundo inteiro. Sua paridade com a China em indicadores militares, tecnológicos e industriais — e, em algumas áreas, sua posição inferior — demonstra uma ruptura estrutural que torna impossível a continuidade da hegemonia unipolar. Trump já foi obrigado a recuar de algumas de suas ameaças. No caso da Groenlândia, por exemplo, ele inicialmente sugeriu o uso da força militar, mas abandonou essa opção depois que quase 800 bilhões de dólares foram apagados dos mercados acionários dos EUA na véspera de Davos.
Na realidade, os Estados Unidos estão tentando se reposicionar dentro de uma nova ordem mundial. O esforço de vincular incondicionalmente o Hemisfério Ocidental a si mesmos, por meio de um renascimento da Doutrina Monroe, é em si uma admissão do declínio de sua capacidade global. Mesmo nesse contexto, Washington não consegue impedir o Canadá ou o Brasil de expandirem suas relações com a China, nem evitar que a Argentina mantenha laços econômicos abrangentes com Pequim. Esses casos, juntamente com os BRICS e outros países do Sul Global, demonstram como uma política baseada em pressão e ameaças é contraproducente.
Os Estados buscam cada vez mais equilíbrio com a China, cujo modelo de comércio, financiamento de infraestrutura e benefício mútuo gera atração justamente por não depender de coerção. Em Davos, a China foi discutida sob a ótica da incerteza controlada, e não de uma ruptura aberta. Enquanto os Estados Unidos traçam uma linha rígida de competição sistêmica, os países europeus tentam equilibrar realidades econômicas com pressões geopolíticas. De um lado, buscam manter comércio, investimentos e acesso ao mercado chinês; de outro, promovem distanciamento em tecnologia, segurança e infraestrutura crítica. Isso reflete uma política europeia marcada por flexibilidade tática, e não por clareza estratégica.
Em contraste, a abordagem coercitiva dos Estados Unidos gera ruptura, e não lealdade. Para Washington, a multipolaridade já não é uma escolha estratégica, mas o resultado sintomático do enfraquecimento do poder e da aceitação forçada da realidade. O reconhecimento aberto, por aliados como França, Reino Unido, Alemanha, Canadá e Arábia Saudita, de que a ordem centrada nos EUA chegou ao fim é consequência direta dessa erosão. Se essa trajetória continuar, os Estados Unidos acabarão enfrentando a necessidade de retornar a uma política de coexistência pacífica com a China, à semelhança da coexistência da Guerra Fria com a União Soviética. A alternativa, evidentemente, é a guerra.
O fim da ordem baseada em regras
O denominador comum mais evidente de Davos 2026 foi o reconhecimento de que a ordem global passa por uma ruptura, e não por uma evolução. Durante décadas, o discurso de um sistema internacional baseado em regras funcionou como uma narrativa que ocultava exceções arbitrárias e práticas assimétricas das grandes potências. Em Davos, esse véu foi abertamente levantado. A aplicação seletiva do direito, a distorção das regras comerciais em favor dos poderosos e a transformação da segurança em instrumento de barganha deixaram de ser negadas.
A declaração política mais contundente sobre esse tema veio do primeiro-ministro do Canadá, o ex-banqueiro Mark Carney. Ele enfatizou que finanças, comércio, energia e cadeias de suprimentos se tornaram instrumentos de pressão e coerção. Ao declarar que já não acredita na ordem baseada em regras, Carney dissolveu, na prática, a legitimidade ideológica do sistema liberal liderado pelos Estados Unidos. Sua declaração pode ser considerada histórica, sinalizando o colapso do alicerce ideológico da ordem ocidental sustentada desde a Guerra Fria.
Esse momento de verdade também expõe a hipocrisia: Estados que apoiaram intervenções imperiais da Líbia ao Iraque, e da Síria a Gaza, só confrontam a realidade quando as ameaças se dirigem a eles próprios, como nos casos da Groenlândia e da Dinamarca.
Confronto contra substituição do direito pelo poder
Os participantes de Davos 2026 concordaram amplamente que o mundo está derivando rapidamente para uma ordem em que o direito recua e o poder prevalece. Embora o chanceler alemão Friedrich Merz, o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro britânico Keir Starmer tenham abordado essa evolução a partir de ângulos distintos, o quadro final foi o mesmo.
Esses líderes — que permaneceram amplamente silenciosos diante das violações legais em Gaza, dos ataques de Israel ao Irã, do sequestro do presidente da Venezuela pelos Estados Unidos ou do assédio a navios mercantes civis sob o pretexto de uma “frota fantasma” — subitamente descobriram os perigos de um mundo governado pela força bruta. Aqueles que agora alertam que até mesmo grandes potências se tornam inseguras quando as regras colapsam foram, apenas um ano antes, participantes ativos da política de poder contra Estados mais fracos. O resultado de seus discursos revelou um confronto claro entre dois campos: os que veem o poder como a única fonte de legitimidade e os que buscam conter o poder por meio do direito.
O comércio agora é uma arma
Quase todas as discussões econômicas em Davos destacaram que o comércio deixou de ser um veículo neutro de prosperidade. Tarifas tornaram-se instrumentos de negociação, sanções passaram a funcionar como mecanismos de punição geopolítica e cadeias de suprimentos converteram-se em zonas de vulnerabilidade. As eficiências da integração global evoluíram para vantagens usadas pelas grandes potências para suprimir concorrentes.
Consequentemente, o conceito de segurança comercial ganhou centralidade, especialmente em economias médias e avançadas, onde o livre-comércio vem sendo substituído por trocas seletivas, controladas e politizadas. Davos também evidenciou que o distanciamento estrutural entre Estados Unidos e Europa já não é uma tensão temporária. Déficits comerciais, exportações automotivas e industriais, conflitos regulatórios e gastos com defesa tornaram-se focos de divergência. Washington vê a Europa como um bloco que se beneficia economicamente sem compartilhar os encargos de segurança, enquanto a Europa percebe os Estados Unidos como imprevisíveis, unilaterais e geradores de custos. A relação transatlântica passou de uma parceria baseada em valores compartilhados para um campo de barganha dura.
O rompimento da conexão entre segurança e economia
Embora a OTAN não tenha sido discutida explicitamente em Davos, ela esteve presente como pano de fundo. A parcela dos Estados Unidos nos gastos de defesa da aliança é cada vez mais usada como instrumento de pressão econômica e política. Os EUA respondem por cerca de dois terços das despesas de defesa da OTAN e aproximadamente 16% de seu orçamento anual. As críticas de longa data de Trump à complacência estratégica europeia evoluíram para uma tentativa mais ampla de monetizar o guarda-chuva de segurança dos EUA por meio de comércio, energia e concessões estratégicas.
Os Estados europeus, no entanto, interpretam isso cada vez mais como um ataque à soberania e à autonomia, corroendo o equilíbrio tradicional entre segurança e economia dentro da OTAN. A insistência de Trump de que a Groenlândia é vital para a segurança dos EUA — e não para a defesa coletiva da OTAN — minou ainda mais a coesão da aliança e simbolizou uma crise de confiança mais profunda.
A nova conjuntura geopolítica e a ascensão das potências médias
O processo de Davos 2026 também fortaleceu a autoconfiança de potências médias, como a Turquia. A intensificação da competição entre grandes potências cria riscos e oportunidades para Estados que evitam alinhamentos rígidos ou rupturas abertas. Países capazes de construir resiliência em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e diplomacia podem redefinir a cooperação em um sistema global fragmentado.
A aproximação gradual da Europa com a China, espelhando o movimento anterior da Rússia em direção ao Oriente, sugere um futuro no qual os Estados Unidos consolidam o Hemisfério Ocidental, enquanto a Europa passa a se reconhecer como a península ocidental da Eurásia. A fragmentação interna nos Estados Unidos — impulsionada por interesses concorrentes entre facções MAGA, neoconservadores, lobbies, indústria armamentista, capital financeiro e think tanks — enfraquece ainda mais a coerência estratégica de Washington.
