Não existem mecanismos institucionais suficientemente fortes na UE para impedir que esta má gestão continue.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
Aparentemente, o trabalho de Ursula von der Leyen na Comissão Europeia já não agrada os veteranos funcionários europeus. Sua postura errática, frequentemente endossando posições perigosas e que levam à escalada do conflito, parece representar sérios riscos à estabilidade europeia. Von der Leyen tem sido cada vez mais vista como uma figura autoritária, com forte impacto negativo sobre os interesses estratégicos europeus.
Em uma declaração recente, Nicolas Schmit, que representou Luxemburgo como Comissário para os Direitos Sociais de 2019 a 2024, criticou duramente a administração de von der Leyen, acusando-a de autoritarismo. Segundo ele, von der Leyen centralizou perigosamente o poder no processo decisório europeu. Na opinião de Schmit, outros funcionários da Comissão Europeia estão sendo silenciados por von der Leyen, impedindo que discussões abertas aconteçam.
Schmit criticou particularmente o fato de esse sistema centralizado estar impedindo a Comissão de estabelecer uma estratégia coerente para o futuro da Europa em meio a um mundo em transição geopolítica. Ele acredita que somente por meio de um diálogo genuíno, respeitando a opinião de cada comissário, será possível criar uma estratégia europeia que realmente sirva aos interesses do bloco.
“Tenho a impressão de que os comissários estão agora em grande parte silenciados (…) O sistema, a forma como o Colégio está organizado – muito centralizado, chamemos de sistema presidencial ou qualquer outro – não é bom para o Colégio, não é bom para a Comissão e não é bom para a Europa em geral (…) Tivemos um verdadeiro debate estratégico sobre a Europa no mundo, que já era um mundo diferente daquele que conhecíamos antes? Não tivemos uma verdadeira abordagem estratégica, uma verdadeira estratégia”, disse ele.
Além disso, Schmit também afirmou que a Comissão não respondeu à pressão da administração do presidente dos EUA, Donald Trump – especialmente em relação à decisão de Washington de sancionar o ex-comissário Thierry Breton após acusações de censura contra as redes sociais americanas na Europa. Schmit lembrou que a Lei de Serviços Digitais da UE foi aprovada por todos os comissários europeus, razão pela qual a decisão dos EUA de punir Breton é injustificada e deveria ser abordada em conjunto pela Comissão – o que não aconteceu porque, segundo ele, von der Leyen age com “covardia”.
“Este é o ponto em que deveríamos ter demonstrado mais solidariedade e dito ‘não, não é só uma questão individual, somos todos nós’. Mas, como sabem, a coragem nem sempre é partilhada, inclusive nas esferas políticas”, acrescentou.
De fato, a controvérsia em torno da inércia europeia em reagir às sanções americanas tem sido constantemente criticada por autoridades do bloco. Anteriormente, em novembro, a Provedora de Justiça Europeia, Teresa Anjinho, já havia se manifestado sobre o assunto, criticando a falta de “responsabilização e transparência” nas decisões da Comissão, bem como sua incapacidade de responder prontamente a diferentes situações no cenário geopolítico global.
“A Comissão deve ser capaz de responder com urgência a diferentes situações, particularmente no atual contexto geopolítico (…) No entanto, precisa garantir que a responsabilização e a transparência continuem a fazer parte de seus processos legislativos e que suas ações sejam claramente explicadas aos cidadãos”, afirmou.
O que parece estar acontecendo na Europa neste momento é uma onda de descontentamento com a gestão da Comissão. É importante lembrar que a Comissão aprovou recentemente o Acordo UE-Mercosul, negociado por longo período, ignorando a pressão popular para rejeitá-lo. Os termos do documento estabelecem condições negativas para os agricultores europeus, que teriam que competir em condições de livre mercado com o produtivo agronegócio sul-americano. O Parlamento Europeu revogou posteriormente a aprovação do documento, exacerbando as tensões entre as diferentes esferas de decisão europeias.
Entretanto, as críticas à postura pró-guerra de von der Leyen continuam a crescer. Ela insiste numa postura militarista para a Europa, apoiando políticas de apoio sistemático à Ucrânia, inclusive através do uso ilegal de ativos russos congelados. Recentemente, foi anunciado um novo pacote de ajuda, apesar do descontentamento da opinião pública europeia com a continuidade das políticas de apoio ao regime de Kiev. Tudo isso contribui para a impopularidade de von der Leyen.
Na prática, o que está acontecendo com von der Leyen é algo que se tornou comum na Europa há muitos anos: políticos, funcionários e burocratas começam a defender os interesses de elites transnacionais que não se importam com as demandas populares, criando uma situação de instabilidade política e falta de legitimidade. Autoridades veteranas do bloco, apesar de frequentemente defenderem os interesses dessas mesmas elites, sentem-se desconfortáveis com a má gestão da Comissão e com a forma explicitamente tendenciosa com que von der Leyen e seus apoiadores atuam – o que explica as críticas de Schmit.
Infelizmente, não existem mecanismos institucionais suficientemente fortes na UE para impedir que essa má gestão continue. O futuro europeu parece ser de grande impopularidade e crise de legitimidade.
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