Movimento de Solidariedade Ibero-americana
Em seus 56 anos, a existência do Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês) esteve estreitamente vinculada ao advento e expansão da globalização financeira, cujos rumos foram, em grande medida, definidos em suas reuniões anuais no resort alpino suíço de Davos-Klosters. Ali, os milhares de representantes da alta finança, indústria, academia, mídia e chefes de Estado e de governo, se congregavam em um eficiente processo de formação e difusão de consensos que se refletiam em políticas públicas convergentes com eles, ao ponto de a expressão “homem de Davos” tornar-se um símbolo da globalização e da ideologia ultraliberal que a justifica, nada mais que uma repaginação do velho sistema britânico de livre comércio.
A edição deste ano, realizada entre 19-23 de janeiro, jamais será esquecida pelos participantes, que nela receberam a mensagem inequívoca do fim do “globalismo” e do esgotamento da ideologia livre-cambista como suposta mola propulsora do progresso das nações. Recado que, por uma grande ironia da História, foi transmitido pela outrora potência líder da globalização, os Estados Unidos da América, agora sob a gestão disruptiva de Donald Trump, que, em troca, parece empenhada em recolocar o país no rumo que o levou à posição de maior potência produtiva do mundo, praticando políticas econômicas inspiradas pelo chamado Sistema Americano de Economia Política.
Em Davos, coube ao representante comercial dos Estados Unidos (USTR), o diplomata Jamieson Greer, instruir os presentes sobre o Sistema Americano, do qual, seguramente, a grande maioria jamais ouvira falar ou preferia sequer tomar conhecimento, a julgar pela ausência de qualquer pergunta a respeito no debate que se seguiu à sua exposição.
Intitulada “De Hamilton aos dias de hoje: comércio e estratégia econômica dos EUA”, a palestra de Greer constitui, possivelmente, a melhor síntese do segredo de polichinelo do caminho estadunidense para o desenvolvimento produtivo e, de passagem, dos efeitos negativos do abandono de tal orientação a partir da década de 1970. Vale a pena observar alguns dos seus trechos mais relevantes, mas a leitura completa é recomendada. Vamos a ela:
“(…) Como verão, a posição padrão durante a maior parte da história dos EUA tem sido uma combinação pragmática de tarifas, intervenção estatal e otimização de acordos comerciais. O presidente Trump revitalizou essa abordagem com grande sucesso. Também descreverei em detalhes a influência que essa abordagem teve nas estratégias de desenvolvimento em todo o mundo e na ordem global do pós-guerra. E, claro, apresentarei minhas opiniões sobre como tudo isso é relevante diante dos desafios que enfrentamos no sistema econômico internacional. Após analisar tudo isso, provavelmente, concordarão que os problemas e soluções do passado são muito semelhantes aos problemas e soluções de hoje. (…)”
Dando-lhe o devido crédito histórico, Greer apontou o primeiro secretário do Tesouro dos EUA, Alexander Hamilton, como o iniciador do Sistema Americano, com o seu célebre Relatório sobre as manufaturas de 1791:
“Hamilton defendeu uma política econômica robusta que permitisse aos Estados Unidos se tornarem uma potência industrial. Ele propôs uma combinação de tarifas e subsídios para incentivar a industrialização. Hamilton acreditava que tais medidas eram necessárias para promover o desenvolvimento de indústrias, como a têxtil, que precisavam de proteção contra produtores estrangeiros dominantes, para atingir a escala necessária para suprir as necessidades dos EUA e serem competitivas globalmente. Essa visão, como discutirei, lançou as bases para a prosperidade estadunidense e até mesmo global, nos séculos XIX e XX. (…)
“Por ocasião da Guerra Civil, o Sistema Americano já havia estabelecido os primórdios da máquina industrial estadunidense. A produção industrial per capita estadunidense aumentou 525% entre 1750 e 1860, superando a de todos os outros países importantes, com exceção do Reino Unido. No entanto, o engenho e a produtividade estadunidenses foram prejudicados pela escravidão no Sul, que mantinha o país atrelado a uma classe de plantadores exploradora e atrasada, que pressionava incessantemente em favor do livre comércio. Os milionários sulistas queriam vender aos britânicos o algodão cultivado por seus escravos e, em troca, comprar produtos manufaturados estrangeiros baratos, sem nenhum interesse em apoiar a indústria estadunidense ou em qualquer ideia de um projeto nacional mais amplo. Naquela época, o Sul preferia um modelo colonial para sua a própria economia, desempenhando o papel de produtor de mercadorias para os impérios europeus.”
Igualmente, Greer destacou o papel de Henry Carey, assessor econômico do presidente Abraham Lincoln (1860-65):
“Henry Carey foi um conselheiro influente de Lincoln. Ele fez mais do que qualquer outra pessoa, possivelmente até mais do que Hamilton, para apresentar a lógica da agenda de desenvolvimento dos Estados Unidos – e, como discutirei mais adiante –, ao inspirar grande parte do resto do mundo a copiá-la. Ele tinha dois argumentos principais, e vale a pena considerá-los hoje.
“Primeiro, Carey argumentava que as tarifas eram essenciais para criar o que ele chamava de ‘Harmonia de Interesses’. Em sua visão, o crescimento do mercado interno deveria criar mais e melhores empregos para as pessoas comuns, que então gastariam o seu dinheiro recém-adquirido em bens produzidos internamente, o que, por sua vez, impulsionaria ainda mais a economia em um ciclo positivo. Carey argumentava que a economia diversificada resultante seria mais resiliente e, na verdade, cresceria mais rapidamente, criando efeitos de rede entre os setores e aproveitando melhor os diversos talentos de empreendedores e trabalhadores. Não era uma política para restringir o consumo, mas sim para promover o consumo de bens nacionais produzidos por estadunidenses.
“Segundo, Carey acreditava na dignidade do trabalho e era um opositor apaixonado da pobreza e da exploração. O seu trabalho pela causa da União ajudou a desmantelar a escravidão em casa, mas Carey percebeu que a abolição estadunidense não era suficiente. Ele argumentou que os Estados Unidos precisavam de tarifas para neutralizar os efeitos de práticas trabalhistas e de outros tipos abusivas em todo o mundo. Carey atacou o colonialismo de impérios europeus como a Grã-Bretanha, a França e a Espanha. Ele explicou que os Estados Unidos precisavam proteger seus trabalhadores da competição com regimes abusivos que não valorizavam a dignidade das pessoas que governavam impiedosamente. Ele argumentou que isso era essencial para permitir que os cidadãos estadunidenses progredissem e reivindicassem os seus direitos, e percebeu que a alternativa era uma corrida desenfreada para o fundo do poço.
“A União venceu a Guerra Civil e seguiu os conselhos de Carey. Os Estados Unidos aumentaram as suas tarifas diante do mundo e o desenvolvimento econômico cresceu ainda mais rapidamente. Em 1913, a produção industrial per capita dos EUA era a maior do mundo, 10% superior à do Reino Unido e 600% maior do que em 1860. Segundo um estudo, a produção industrial total estadunidense aumentou 1.030% entre 1860 e 1910. (…)”
Chegando ao século XX, Greer ressaltou:
“Ao longo de todo esse período, os Estados Unidos seguiram a estratégia industrial que Alexander Hamilton havia delineado há mais de 200 anos. Protegemos a nossa indústria da concorrência estrangeira sempre que isso foi necessário para desbloquear o crescimento ou para neutralizar condições de produção injustas no exterior. O projeto estadunidense era pragmático e multifacetado, combinando o poder da concorrência de mercado com ações políticas governamentais apropriadas para incentivar o desenvolvimento econômico. (…)
Sobre o ponto de inflexão, observou:
“Ao final da Guerra Fria, enquanto muitos se regozijavam com o que consideravam o ‘fim da História’, os formuladores de políticas estadunidenses, em grande medida, descartaram a nossa abordagem histórica e pragmática ao comércio – ou, talvez, se tornaram complacentes com a suposição de uma prosperidade infinita. Buscamos a hiperglobalização independentemente das consequências e nos vinculamos ao NAFTA [Acordo de Livre Comércio da América do Norte] e à Organização Mundial do Comércio, de uma forma que impossibilitou aos Estados Unidos responderem eficazmente às práticas estrangeiras e defender a nossa produção industrial. (…)
“Outros países, por outro lado, nunca se esqueceram da estratégia estadunidense. Eles moldaram os seus sistemas econômicos para aprender com os Estados Unidos e não foram tolos o suficiente para parar quando os EUA decidiram buscar a globalização como um fim em si mesmo. O Sistema Americano tornou-se um sistema econômico global, moldando as estruturas das economias muito além de nossas fronteiras.”
Segundo Greer, o Sistema Americano foi determinante na Alemanha unificada sob o chanceler Otto von Bismarck, inspirado nas ideias do economista Friedrich List, ativo divulgador do Sistema Americano, no Japão da Restauração Meiji, no Canadá, na Austrália e em outros países que seguiram o rumo da industrialização no século XIX. Posteriormente, destacou, a China de Deng Xiaoping também se inspirou nas mesmas ideias.
“Para onde quer que mergulhemos em em histórias de desenvolvimento econômico bem sucedido, vemos Hamilton e seus sucessores em ação, isso é bastante claro”, destacou.
Porém, observou:
“Mas esses objetivos e princípios originais foram rejeitados com o fim da Guerra Fria. Com a Organização Mundial do Comércio (OMC), criamos um sistema rígido de resolução de disputas, composto por burocratas que não prestam contas em Genebra, que interpretaram as regras de forma tão restritiva que elas perderam grande parte da flexibilidade pretendida. Os Estados Unidos alteraram suas leis com base nos resultados dessas disputas, mesmo que isso contrariasse os nossos direitos negociados no âmbito do GATT [Acordo Geral de Tarifas e Comércio] ou dos acordos da OMC, ou fosse contrário aos nossos interesses nacionais.
Permitimos a entrada de grandes economias que não eram de mercado no sistema de comércio mundial, concedemos a elas o mesmo tratamento tarifário que aos nossos aliados mais próximos e não as responsabilizamos pelos compromissos assumidos nesse processo.”
E advertiu:
“Mas essa era acabou. Os Estados Unidos estão agora avançando para resolver problemas históricos com soluções históricas. Na medida em que os estadunidenses tomam medidas ativas para reequilibrar o seu próprio comércio, seus parceiros estão livres para se unirem a nós na construção de um novo sistema econômico internacional adaptado aos desafios atuais.
“Desta vez, o objetivo do sistema econômico internacional deve ser priorizar e proteger os interesses nacionais, garantindo, ao mesmo tempo, equilíbrio e equidade.”
Em conclusão, Greer pontuou:
“Os Estados Unidos estão rompendo com o status quo e tomando as medidas necessárias para proteger os interesses estadunidenses. O sistema que operou nas últimas três décadas exigia que os Estados Unidos absorvessem os superávits comerciais cada vez maiores de outras nações. Comprávamos quantidades cada vez maiores de produtos artificialmente baratos, financiados por dívidas que cresciam constantemente. Essa abordagem não era sustentável – nem econômica nem politicamente. Os estadunidenses optaram repetidamente por rejeitá-la nas urnas. O novo sistema que está emergindo é do interesse dos trabalhadores, produtores, agricultores e pecuaristas estadunidenses.
“No entanto, os povos da Europa, do Reino Unido, do México e de outras economias também são vulneráveis a práticas não mercantis e à supercapacidade produtiva. Cada vez mais, os trabalhadores desses países veem seus meios de subsistência desaparecerem devido à enxurrada de importações baratas. Uma ordem econômica internacional equilibrada também é do interesse deles. Se os seus políticos ainda não entenderam que enfrentam as mesmas pressões que os Estados Unidos, os seus eleitores logo lhes explicarão isso. Líderes sábios devem se lembrar das lições do passado e usá-las para se adaptar às realidades do presente.
“Espero que os nossos parceiros em todo o mundo, que outrora estudaram e replicaram o Sistema Americano em sua trajetória de desenvolvimento, reconheçam a necessidade de reformular o sistema de comércio internacional com base na justiça, no equilíbrio e nos interesses nacionais.”
O recado está dado. Quem não prestar a devida atenção nele, o fará por sua própria conta e risco.
