Lorenzo Carrasco
O renovado ataque dos EUA e Israel ao Irã constitui um erro de cálculo de vastas proporções, principalmente, para o presidente Donald Trump. A começar pelo emprego deliberado de uma fachada de diplomacia para ocultar a intenção do ataque militar, aliás, repetindo o precedente de junho último, na chamada Guerra dos 12 Dias. De agora em diante, os EUA terão grandes dificuldades para praticar a verdadeira arte diplomática fora dos seus circuitos de influência direta – Europa, Japão, Coreia do Sul e outros apêndices.
Outro equívoco maiúsculo foi a crença de Trump e alguns de seus auxiliares diretos na possibilidade de repetição da tática israelense de decapitação do comando adversário, na esperança de provocar desordens internas e a sua eventual capitulação rápida. Ao contrário, como advertiram vários experts, inclusive a própria CIA, era grande a probabilidade de que, em caso de sua eliminação, o líder iraniano Ali Khamenei seria substituído por alguém mais radical e reforçasse a posição dos linha-duras do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, a espinha dorsal do regime iraniano, o que parece estar se configurando.
O reduzido estoque de munições disponíveis às forças estadunidenses, depauperado pela guerra de junho e pela campanha na Ucrânia, constituía outra limitação séria, como advertiu o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, cujas palavras foram distorcidas pelo próprio Trump para sugerir que uma investida contra o Irã não duraria mais que alguns dias. Em especial, no caso dos mísseis antimísseis, que, como em junho, correm o risco de esgotar-se rapidamente, diante das contínuas salvas de drones e mísseis iranianos.
Como enfatiza o tenente-coronel da reserva estadunidense Daniel Davis, um veterano de quatro campanhas de combate convertido num dos melhores comentaristas de assuntos militares disponíveis, trata-se de uma guerra que não pode ser vencida.
A investida militar também mostrou, mais uma vez, a força do lobby pró-Israel junto ao governo estadunidense, pois o único beneficiário do confronto com o Irã é o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que precisa manter Israel em um estado de conflito permanente, para seguir adiando indefinidamente o acerto dos seus problemas com a justiça israelense.
Em essência, os EUA podem estar diante de um maiúsculo revés estratégico e Trump corre o risco de enfrentar dificuldades crescentes no restante de seu mandato, principalmente, se o Partido Republicano perder a maioria nas duas casas do Congresso, nas eleições de novembro próximo.
