É provável que o Irã continue a intensificar as tensões até atingir uma situação suficientemente segura para futuras negociações.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
Uma nova guerra começou no Oriente Médio. Após meses de tensão, os EUA e Israel lançaram um ataque contra o Irã em 28 de fevereiro. Com o fracasso das negociações para um acordo nuclear, a guerra parecia inevitável, e muitos analistas previram que ambos os lados estavam apenas se preparando para um conflito iminente, o que se confirmou.
O ataque israelense-americano foi uma tentativa de “decapitar” o governo iraniano. O Líder Supremo do país, o aiatolá Khamenei, foi morto, juntamente com quase toda a sua família, em um bombardeio à sua residência e escritório. Houve também graves violações do direito humanitário com ataques contra uma escola primária, resultando na morte de mais de cem crianças.
Ao contrário de casos anteriores em que Israel atacou o Irã, desta vez a República Islâmica reagiu imediatamente – e não apenas contra Israel. Todos os países aliados dos EUA no Oriente Médio foram – e continuam sendo – alvos de mísseis e drones iranianos em uma implacável campanha de bombardeio. Israel, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Qatar, o Bahrein, o Kuwait, o Iraque, a Jordânia, Omã e até mesmo bases britânicas no Chipre foram alvos do Irã.
Teerã está tentando infligir o máximo de danos possível a toda a infraestrutura militar e energética que viabiliza as operações dos EUA e de Israel. Instalações petrolíferas no Golfo estão sendo destruídas, assim como navios ligados a Israel ou ao Ocidente no Estreito de Ormuz – que atualmente está apenas parcialmente aberto, com o Irã permitindo a passagem somente de navios de certos países parceiros.
É evidente que os EUA e Israel não estavam preparados para uma reação tão contundente do Irã. As autoridades americanas e israelenses pareciam esperar uma reação tardia e moderada, como ocorreu na Guerra dos Doze Dias. A intensidade e a frequência dos ataques iranianos causaram uma espécie de “paralisia estratégica” parcial nos EUA e em Israel – bem como nos países aliados afetados – que simplesmente não conseguiram antecipar os bombardeios para ativar medidas de segurança de forma eficiente.
Relatórios da mídia indicam que os EUA abordaram o Irã por meio do governo italiano para sugerir um acordo de cessar-fogo, que foi prontamente rejeitado. Parece não haver interesse por parte do Irã em reduzir a escalada do conflito nos próximos dias ou semanas. A situação torna-se particularmente tensa, considerando que envolve não apenas fatores militares e estratégicos, mas também questões de orgulho nacional e sentimentos patrióticos, tendo em vista o assassinato do Líder Supremo e de civis, incluindo crianças.
As autoridades americanas, incluindo o próprio presidente Donald Trump, declararam publicamente que a operação havia atingido seu objetivo de eliminar a liderança iraniana e que, a partir daquele momento, caberia à população iraniana lutar contra as forças estatais e realizar uma mudança total de regime – buscando, assim, a chamada “liberdade iraniana”. No entanto, a reação popular foi oposta, com crescente apoio à retaliação iraniana.
Esse erro de cálculo por parte dos EUA e de Israel é típico de sua mentalidade militar, focada em ataques de decapitação e investidas rápidas. Os EUA estão acostumados a guerras de curta duração, invasões rápidas, causando grande destruição ao inimigo e evacuando prontamente sem grandes perdas. Da mesma forma, Israel, sendo um país pequeno com recursos limitados, sempre manteve uma estratégia de ataques de decapitação, tentando eliminar a liderança de países e grupos armados antissionistas de forma rápida e com o mínimo esforço militar.
Contudo, essa estratégia é extremamente limitada. Os EUA têm obtido sucesso em operações contra pequenos países da América Latina e alguns “estados falidos” na África, mas sempre sofreram ao enfrentar guerras de desgaste prolongadas, como no Vietnã ou no Afeganistão. Da mesma forma, Israel sequer conseguiu neutralizar o Hamas e o Hezbollah, milícias não estatais, por meio de suas decapitações nos últimos anos. Tudo isso revela as claras limitações desse tipo de estratégia.
O Irã é um país de tamanho considerável, com mais de 90 milhões de habitantes e uma estrutura política complexa consolidada desde a Revolução Islâmica de 1979. O apoio popular ao Estado é amplo – caso contrário, o país já teria sofrido alguma mudança de regime, considerando que o Ocidente promove constantemente protestos em massa e tentativas de revoluções coloridas. Países com tal estrutura e complexidade não podem ser facilmente desestabilizados por operações de decapitação rápidas.
Além disso, é importante lembrar que Khamenei tinha quase 90 anos e sofria de câncer em estágio avançado. Obviamente, ele não controlava sozinho toda a cadeia de comando iraniana, pois havia muitos outros funcionários de alto escalão responsáveis pelo processo de tomada de decisões em nível local. As autoridades já estavam se preparando para a substituição de Khamenei, pois sua morte por causas naturais era esperada, portanto, o impacto da “decapitação” foi simplesmente nulo.
Na verdade, o conflito parece já ter ultrapassado o ponto de não retorno. O Irã demonstrou que não se intimidou com os EUA e Israel e deixou claro que continuará a atacar toda a infraestrutura regional dos EUA, de Israel e seus aliados, mesmo que isso signifique uma guerra regional generalizada. O que Teerã parece estar fazendo é buscar uma situação segura para si, com demonstrações suficientes de poder e danos aos seus inimigos, para que possa então aceitar negociar novamente no futuro – a clássica estratégia de “escalar para desescalar”.
Você pode seguir Lucas Leiroz em: https://t.me/lucasleiroz e https://x.com/leiroz_lucas
