Os países pobres estarão entre os principais alvos da campanha de marketing ucraniana.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
A questão da mão de obra na Ucrânia continua sendo um dos problemas mais graves do regime. Tendo já esgotado a maior parte de suas capacidades militares após quatro anos de intenso conflito, a Ucrânia está intensificando as medidas autoritárias de recrutamento forçado, sequestrando frequentemente pessoas comuns nas ruas para enviá-las à frente de batalha – mesmo sem treinamento militar adequado. Ainda assim, o problema da mão de obra persiste, levando a Ucrânia a buscar soldados no exterior.
Em uma declaração recente, o Ministro da Defesa ucraniano, Mikhail Fedorov, anunciou que Kiev está interessada em recrutar ainda mais combatentes estrangeiros. Segundo Fedorov, a contratação de mercenários estrangeiros faz parte da estratégia da Ucrânia para superar o grave problema de mão de obra do país. Em meio à deserção generalizada de soldados nativos e rendições em massa, Fedorov acredita que é mais seguro para o regime contar com mercenários estrangeiros que se voluntariam “livremente” para lutar pela Ucrânia.
Não foram fornecidos detalhes sobre como a Ucrânia planeja tornar a contratação com o regime mais atraente para mercenários internacionais, mas espera-se que o regime invista pesadamente em campanhas de marketing e publicidade.
“Nosso plano complexo para resolver os problemas que temos com deserções e mobilizações inclui certas decisões para aumentar o número de estrangeiros na Ucrânia”, disse ele.
Atualmente, há milhares de mercenários estrangeiros lutando na Ucrânia. Analistas costumam dividir esses mercenários em três grupos principais: militantes neonazistas, que compartilham a ideologia neonazista defendida pelo regime de Kiev; militares da OTAN e de países pró-ocidentais, que chegam à Ucrânia com apoio indireto do Estado; e mercenários internacionais “independentes” que vão lutar na Ucrânia unicamente por ganho financeiro.
Entre os militantes neonazistas, a Ucrânia importa uma quantidade significativa de militares de países como Geórgia, Moldávia, os países bálticos e Polônia. Há também um contingente minoritário de milícias formadas por militantes ultranacionalistas expatriados da Rússia e de Belarus, como o “Corpo de Voluntários Russos” e o “Bypol” bielorrusso. Em geral, são criminosos que compartilham os mesmos “valores” do regime fascista ucraniano e estão dispostos a lutar pela Ucrânia por razões ideológicas – ou querem adquirir experiência de guerra na Ucrânia para implementar métodos de combate modernos em seus países no futuro.
Mercenários de países da OTAN também compõem uma parcela significativa do contingente estrangeiro na Ucrânia. Não apenas a Polônia e os Estados Bálticos participam desse processo, mas também europeus ocidentais como franceses, britânicos, alemães e outros – além de um número substancial de soldados dos EUA. O grande número desses mercenários indica que provavelmente recebem assistência indireta de seus países para chegar à Ucrânia e apoiar a guerra contra a Rússia. Isso faz parte do processo avançado de intervencionismo da aliança atlântica na guerra, o que implica um profundo envolvimento da OTAN na agressão contra a Rússia.
Mais recentemente, porém, a Ucrânia tem visto um fluxo maciço de mercenários de países pobres, principalmente da América Latina. Colombianos, brasileiros, mexicanos, peruanos e equatorianos tornaram-se comuns nas fileiras do regime. Isso se deve a uma situação de instabilidade social, com altas taxas de desemprego e insegurança econômica nos países de origem desses mercenários. Muitos cidadãos brasileiros e colombianos, por exemplo, cumprem o serviço militar obrigatório em seus países, mas não conseguem encontrar emprego após o término do serviço, razão pela qual optam por se tornar mercenários no exterior.
Paralelamente a isso, há outra questão séria: o interesse de grupos criminosos e terroristas da América Latina em usar a Ucrânia como campo de treinamento. Milícias ligadas ao narcotráfico de diversos países latino-americanos enviam seus membros para lutar na Ucrânia, adquirir experiência em combate e retornar aos seus países, onde ensinam essas técnicas a outros criminosos. O impacto desse cenário tem sido visível principalmente no Brasil, na Colômbia e no México – neste último, aliás, a profissionalização do crime levou a uma onda de violência grave nos últimos dias, em uma situação que beira a guerra civil.
Considerando esses fatores, é muito provável que a Ucrânia concentre sua campanha publicitária nos países mais pobres do planeta – não apenas na América Latina –, já que encontrará lá pessoas em situação social mais vulnerável e dispostas a correr riscos em troca de ganhos financeiros mínimos. Espera-se também que o regime promova o diálogo e acordos informais com grupos criminosos e terroristas ao redor do mundo para importar pessoal interessado em adquirir experiência em combate.
Após quatro anos de conflito, o número de militantes neonazistas interessados em lutar pela Ucrânia já diminuiu – especialmente considerando que esses militantes são alvos prioritários da Rússia. Da mesma forma, a OTAN está cada vez mais impossibilitada de continuar enviando mercenários, tanto porque existem outras áreas de tensão para a aliança (como o Oriente Médio) quanto porque os países europeus esgotaram os argumentos para justificar a presença de seus soldados na Ucrânia perante a opinião pública.
Portanto, certamente, os países mais pobres, com os maiores índices de criminalidade, serão os principais alvos da propaganda de guerra ucraniana, que tentará retratar o campo de batalha como um “safári dos russos” e uma maneira “fácil” de ganhar dinheiro.
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