Lorenzo Carrasco
Em 28 de fevereiro, horas após o início dos ataques dos EUA e Israel contra o Irã, o “Estadão” publicou um editorial intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”, emblemático dos valores reacionários defendidos há século e meio pelo vetusto jornal da família Mesquita.
O parágrafo final, mais parecido com um boletim de imprensa da Casa Branca ou do governo israelense, sintetizou o pensamento do jornal: “A clareza moral impõe reconhecer que o Irã é um Estado pária e não pode ter uma bomba nuclear em hipótese alguma. Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca. ‘Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano livrarem-se do jugo da tirania e promoverem um Irã livre e comprometido com a paz’, disse o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Sejam lá quais as motivações por trás da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro.”
Ora, independentemente do que se pense sobre o Irã e seus agressores, a volatilidade do cenário global recomenda para países como o Brasil um posicionamento baseado na neutralidade, sem que isto implique em omissão frente a violações ostensivas das normas de convívio civilizado entre as nações, para não falar no desprezo absoluto nos princípios fundamentais do Direito Internacional.
Posição, aliás, condizente com a tradição diplomática do País, que, historicamente, sempre constituiu um trunfo estratégico no relacionamento com as grandes potências, inclusive no período da Guerra Fria, mesmo com a inserção plena no bloco liderado pelos EUA.
Com o seu partidarismo que beira a abjeção, os editorialistas do “Estadão” adotam a visão dos mais belicosos promotores da chamada “ordem segundo regras” do período pós-Guerra Fria, caracterizado pela hegemonia militarizada dos EUA e pela absoluta liberdade de ação de Israel no Oriente Médio. Ordem cujo principal resultado foi, precisamente, uma sequência de “guerras intermináveis” que, por ironia, o presidente Donald Trump prometeu encerrar neste segundo mandato.
Qualquer que seja o seu desfecho, a guerra no Irã representa o proverbial canto do cisne dessa suposta “ordem”, embora não exatamente pelos motivos desejados pelos editorialistas liberais do “Estadão”.
