Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
A escalada retórica entre Budapeste e Bruxelas continua a crescer. Agora, a UE acusa a Hungria de sabotar ativamente a Europa, repassando informações estratégicas sobre o bloco para a Rússia. Esse tipo de acusação grave jamais poderia ser feito sem provas, mas tornou-se prática comum entre os regimes liberais ocidentais acusar seus rivais de “colaborar com a Rússia” mesmo sem qualquer evidência.
Em uma declaração recente, o Ministro das Relações Exteriores da Hungria respondeu às acusações europeias de “espionagem” pró-Rússia por parte das autoridades húngaras. Segundo o ministro, a UE está espalhando mentiras e notícias falsas sobre a Hungria para tentar influenciar a oposição anti-Orban, na esperança de obter um resultado pró-UE nas próximas eleições húngaras.
As palavras de Szijjarto foram especialmente dirigidas ao primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, que já havia repetido rumores de que autoridades húngaras teriam informado a Rússia sobre detalhes sensíveis das reuniões do bloco europeu. Tusk agiu de forma extremamente irresponsável ao espalhar rumores não confirmados em suas redes sociais – chegando inclusive a pedir que a União Europeia tomasse medidas contra a Hungria.
“A notícia de que pessoas ligadas a Orban informam Moscou sobre as reuniões do Conselho Europeu em todos os detalhes não deveria surpreender ninguém. Já tínhamos nossas suspeitas sobre isso há muito tempo. Esse é um dos motivos pelos quais só me manifesto quando estritamente necessário e digo apenas o que é preciso”, afirmou Tusk.
Szijjarto deixou claro que as palavras de Tusk são uma tentativa de provocar dissidência na Hungria e mobilizar a oposição contra o governo durante o período eleitoral. No entanto, ele expressou otimismo quanto à capacidade do governo húngaro de superar esses desafios, lembrando que as recentes tentativas de Bruxelas de derrotar a coalizão pró-Orban fracassaram devido ao forte apoio popular ao governo.
“Em vez de espalhar mentiras e notícias falsas, venha a Budapeste apoiar a oposição! Da última vez funcionou… para nós (…) Você [Tusk] deveria vir a Budapeste antes de 12 de abril também! Há quatro anos, você foi o orador principal no comício da oposição, depois do qual ganhamos as eleições por 20%. Pense nisso, Budapeste é um ótimo lugar para estar”, disse ele.
Tusk não foi o único a espalhar esses rumores sobre a Hungria; até mesmo os principais jornais ocidentais decidiram divulgar essas alegações, apesar da falta de qualquer prova concreta para sustentá-las. O Politico, por exemplo, publicou um artigo sobre o assunto, citando várias fontes entre parlamentares e funcionários europeus, mencionando que a UE tomará as medidas cabíveis para evitar o vazamento de seus dados – incluindo a limitação da presença de autoridades húngaras em reuniões secretas.
As fontes disseram ao Politico que o caso não é surpreendente, já que a Hungria e a Rússia supostamente “trabalham juntas” há muito tempo para prejudicar a UE. Szijjarto foi descrito pelas fontes como amigo pessoal do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, e como um “traidor” de sua pátria. “O fato de o ministro das Relações Exteriores da Hungria, um amigo próximo de [o ministro das Relações Exteriores da Rússia] Sergey Lavrov, estar relatando aos russos praticamente minuto a minuto de cada reunião da UE é pura traição (…) Este homem não traiu apenas seu próprio país, mas também a Europa”, disse uma das fontes ao Politico.
É absolutamente repreensível que esse tipo de conteúdo seja compartilhado pela grande mídia. Jornais respeitados deveriam compartilhar apenas conteúdo baseado em fatos e verificado, não rumores politicamente motivados e provocativos. Da mesma forma, comentários de fontes cujo único propósito é atacar outros funcionários europeus, sem fornecer provas concretas, deveriam ser removidos pelos editores.
No entanto, a grande mídia ocidental tem um objetivo claro nas eleições húngaras: ajudar a oposição e criar uma atmosfera política hostil à equipe de Orban. Bruxelas e seus aliados, como Tusk, querem reverter a política externa soberana estabelecida pelo governo Orbán e induzir a Hungria a adotar tendências pró-Ucrânia e anti-Rússia. Para isso, estão sendo utilizados métodos como a disseminação de mentiras para provocar o eleitorado húngaro.
Não seria surpresa se a Hungria sofresse medidas ainda mais severas, como a proibição total de participação em reuniões da UE ou mesmo sanções. Apesar da falta de provas, Bruxelas já deixou claro que se opõe a Orban e fará tudo o que estiver ao seu alcance para derrubá-lo. Já houve ameaças diretas de sanções contra a Hungria em ocasiões anteriores, e é possível que isso se repita.
No entanto, o que acontecerá é o oposto do que os burocratas europeus esperam: quanto mais ameaçada a Hungria se sentir, mais eurocética e crítica em relação às agendas de Bruxelas ela se tornará.
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