Em tempos de guerra e instabilidade internacional, a energia volta a ocupar o centro da disputa entre Estados. Não se trata apenas de mercado, mas de poder. Países que controlam sua cadeia energética têm margem de manobra; os que não controlam tornam-se reféns das crises externas. O Brasil, paradoxalmente, encontra-se no segundo grupo — mesmo sendo um grande produtor de petróleo.
A razão é conhecida, mas pouco enfrentada: exportamos petróleo bruto e importamos derivados. Em outras palavras, abrimos mão de agregar valor internamente e aceitamos pagar mais caro pelo produto final. Esse modelo, longe de ser inevitável, é resultado de escolhas políticas recentes que enfraqueceram o parque de refino nacional e fragmentaram a cadeia do petróleo.
O problema se agrava quando se adota uma política de preços atrelada ao mercado internacional. A chamada paridade de importação (PPI) transforma choques externos — guerras, sanções, crises logísticas — em aumentos imediatos para o consumidor brasileiro. Pouco importa se o petróleo é extraído em território nacional ou se os custos internos são menores: o preço segue o mercado global. O resultado é previsível: inflação, perda de renda e instabilidade econômica.
Defensores desse modelo argumentam que ele garante competitividade e atrai investimentos. Na prática, o que se observa é a transferência de renda para importadores e intermediários, além da perda de capacidade do Estado de coordenar um setor estratégico. A privatização de refinarias e da distribuição agravou esse quadro, criando um sistema fragmentado, com múltiplos agentes buscando maximizar margens, mas sem compromisso com o interesse nacional.
A alternativa existe e não é nova. O Brasil já operou com uma Petrobras integrada, capaz de atuar “do poço ao posto”, garantindo abastecimento e amortecendo choques externos. Retomar esse modelo não significa isolamento, mas sim recuperar instrumentos de política econômica.
Isso passa, inevitavelmente, por três frentes.
1. Recompor o controle sobre a distribuição de combustíveis, permitindo ao Estado influenciar preços na ponta.
2. Reintegrar o parque de refino, revertendo a lógica de desmonte recente e ampliando a capacidade de produção interna.
3. Adotar uma política de preços que considere os custos nacionais e os objetivos de desenvolvimento, em vez de simplesmente replicar o mercado internacional.
Em artigo recente, o presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), Felipe Coutinho, defende três medidas principais: reestatização da BR Distribuidora (privatizada no governo Bolsonaro); recompra das refinarias estatizadas no mesmo período, incluindo a RLAM (Bahia), REMAN (Amazonas) e RPPC (Rio Grande do Norte); além da política de preços soberana.
Críticos dirão que isso implica custos fiscais ou insegurança jurídica. Mas a pergunta central é outra: qual o custo de não agir? Continuar dependente de importações em um cenário de crescente instabilidade global significa aceitar ciclos recorrentes de crise, pressão inflacionária e perda de soberania econômica.
Soberania energética não pode ser um conceito abstrato. Ela se materializa na capacidade de um país decidir quanto produz, quanto refina e a que preço abastece sua população. Sem isso, qualquer discurso sobre desenvolvimento ou autonomia nacional torna-se vazio.
O Brasil reúne todas as condições para exercer esse controle: recursos naturais abundantes, capacidade técnica instalada e uma empresa estatal com histórico de atuação estratégica. Falta, portanto, menos capacidade do que decisão política.
Em um mundo cada vez mais fragmentado e conflituoso, energia não é apenas insumo — é instrumento de poder. E abrir mão desse instrumento é, no mínimo, uma escolha arriscada.
