Em sua carta anual aos investidores, o CEO da BlackRock, Larry Fink, defendeu a ampliação do investimento de longo prazo como mecanismo de integração social e desenvolvimento nacional, em detrimento dos ganhos especulativos de curto prazo.
Segundo Fink, essas medidas seriam necessárias para enfrentar a atual crise do modelo econômico atual, marcado por três elementos: (1) fragmentação do modelo tradicional de globalização, com países buscando maior autonomia estratégica; (2) crescente concentração de riqueza em detentores de ativos financeiros, em detrimento da renda do trabalho; (3) avanço da inteligência artificial, que pode ampliar ainda mais essa desigualdade.
Acrescenta que o foco nos investimentos de longo prazo acarreta um “milagre cívico”, tal qual experimentado pelos Estados Unidos em meados do século XX, relembrando a época em que seus pais viveram, do boom da industrial puxado pela indústria automotiva, associado à construção do sistema de rodovias interestaduais no plano da infraestrutura logística.
A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, foi uma das pioneiras do chamado “capitalismo de stakeholder” e da pauta ESG, que impulsionou as chamadas “finanças verdes” e o investimento em “descarbonização”, em sintonia com o Acordo de Paris de 2015. Neste ano, adota outro tom, possivelmente levando em conta o cenário geopolítico que afeta as cadeias globais de suprimento. Assim como a estratégia “MAGA” do atual governo dos EUA de voltar a produzir internamente, dependendo menos de exportações.
No Brasil, com todas as nossas as nossas grandes lacunas no setor de logística e infraestrutura, além da necessidade de retomada produtiva em setores essenciais como geração de energia, combustíveis e fertilizantes, cabe trazer posicionamentos como esse de Larry Fink para os nossos principais atores econômicos, nos setores público e privado. Tema que deveria ser um dos principais para o pleito presidencial deste ano.
Leia, abaixo, a transcrição da carta para o português:
Crescendo com o seu país: reflexões de um otimista de longo prazo, por Larry Fink.
Todos os anos, escrevo esta carta como uma síntese de um ano inteiro de conversas com clientes e colaboradores, líderes mundiais, CEOs — e pessoas que estão investindo para a aposentadoria. Ultimamente, não importa quem esteja falando, todos dizem a mesma coisa: não sabemos como navegar este momento.
Isso é compreensível. Estamos vivendo um período em que acontecimentos que definiriam uma década tornaram-se rotina: guerras com repercussões globais, empresas trilionárias, uma reconfiguração fundamental do comércio internacional e o surgimento da tecnologia mais significativa, pelo menos, desde o computador.
Com muita frequência, tudo isso é filtrado por uma lente de curto prazo. Movimentos diários de mercado são tratados como sinais de mudanças duradouras, e transições econômicas ou tecnológicas complexas são reduzidas a manchetes. Vivemos em um mundo onde a informação circula instantaneamente, e as reações seguem na mesma velocidade. Às vezes, isso pode parecer impulsionado por dopamina — onde o fluxo constante de estímulos recompensa impulsos de curto prazo. Mas a velocidade pode distorcer a perspectiva, sufocando o pensamento de longo prazo.
Para ser justo, nos mercados financeiros toda essa atividade de curto prazo tem uma função. É assim que novas informações são absorvidas, riscos são precificados e o capital é alocado.
Mas, ao longo do tempo, permanecer investido importa muito mais do que acertar o momento certo. Nas últimas duas décadas, cada dólar investido no S&P 500 cresceu mais de oito vezes. Perder apenas os dez melhores dias significaria obter menos da metade desse retorno. E alguns dos melhores dias do mercado ocorreram justamente em meio às manchetes mais perturbadoras.
O perigo é focarmos tanto no ruído que esquecemos o que realmente importa. As forças por trás das manchetes atuais vêm se formando há muito tempo. O antigo modelo do capitalismo global está se fragmentando. Países estão gastando somas enormes para se tornarem autossuficientes — em energia, defesa e tecnologia.
Enquanto isso, a maior parte da riqueza foi direcionada a quem possui ativos, e não a quem obtém renda principalmente do trabalho. Desde 1989, um dólar no mercado de ações dos EUA cresceu mais de 15 vezes o valor de um dólar atrelado ao salário médio. Agora, a inteligência artificial ameaça repetir esse padrão em uma escala ainda maior — concentrando riqueza entre empresas e investidores posicionados para capturá-la.
É daí que vem grande parte da ansiedade econômica atual: a sensação de que o capitalismo está funcionando — mas não para pessoas suficientes. E focar em investimentos de curto prazo não resolve isso. Pelo contrário, é o investimento de longo prazo que permite aos países desenvolver indústrias domésticas, às pessoas construir riqueza duradoura e enxergar como o crescimento do país também pode beneficiá-las.
No seu melhor, o investimento de longo prazo realiza uma espécie de milagre cívico. Quando as pessoas investem suas economias — ao longo de décadas, não de dias — os mercados de capitais colocam esse dinheiro em movimento, financiando empresas, infraestrutura e empregos. E quando esse ciclo ocorre dentro do seu próprio país, o seu futuro e o da sua nação se tornam interligados. Você ajuda a financiar o crescimento do país. E ele ajuda a financiar o seu.
Minha crença nesse “milagre cívico” é, obviamente, influenciada pelo meu trabalho. Mas não falo apenas como CEO da BlackRock — essa visão reflete décadas de experiência observando como o investimento pode ajudar mais pessoas a participar do crescimento econômico.
Ela também se baseia em algo mais pessoal. Meu pai nasceu em 1925. Minha mãe, em 1930. Eles não vieram de uma família rica. Meu pai tinha uma loja de sapatos. Minha mãe ensinava inglês. Mas eles economizavam o que podiam e investiam.
Era a década de 1950 e 1960, quando o sistema de rodovias interestaduais estava sendo construído, o boom industrial do pós-guerra estava em plena expansão e o setor automotivo transformava a vida americana. E, à sua maneira, eles ajudaram a financiar tudo isso. Faziam parte do capital que construiu a América moderna. E, com o tempo, os ganhos retornaram a eles. Quando se aposentaram, tinham poupança suficiente para viver confortavelmente por muito tempo. Porque sua riqueza cresceu junto com a economia americana.
E essa dinâmica vai muito além dos Estados Unidos. Em diferentes países e gerações, o padrão tem sido semelhante. Famílias que investiram de forma ampla e consistente — passando por depressões, guerras, inflação, crises financeiras e até uma pandemia global — tiveram a oportunidade de ver sua riqueza crescer junto com suas economias. Essa história é a razão pela qual continuo sendo um otimista de longo prazo. Não porque o caminho seja fácil, mas porque os mercados tendem a recompensar quem permanece investido em meio à incerteza.
É disso que se trata este momento: ampliar essa oportunidade. Garantir que mais pessoas possam ter participação no crescimento de seus países. Porque, hoje, muitos ainda estão de fora.
Muitas pessoas sequer têm recursos para investir — vivem de salário em salário. Não é possível investir quando não se sabe se será possível pagar o aluguel do próximo mês, as compras da próxima semana ou uma despesa inesperada. Portanto, o ponto de partida deve ser ajudar as pessoas a construir segurança financeira básica.
E isso começa a acontecer. Contas de poupança para emergências, nas quais empregadores podem contribuir e trabalhadores podem sacar sem penalidade, estão ganhando espaço. E um número crescente de países está experimentando contas de investimento iniciadas no nascimento, dando às crianças uma participação no crescimento econômico desde cedo.
Mesmo onde há poupança, a participação ainda é limitada. Os EUA provavelmente têm a maior taxa de participação nos mercados do mundo. Ainda assim, cerca de 40% da população não tem exposição aos mercados de capitais. No restante do mundo, esse número é muito menor. Bilhões assistem ao crescimento de suas economias de fora — como inquilinos, não proprietários — mantendo suas economias em contas bancárias com baixo rendimento, em vez de investir para participar desse crescimento.
Os mercados funcionam quando os investidores confiam que podem comprar e vender a preços justos. Essa confiança permite que empresas captem recursos para crescer e que famílias diversifiquem seus investimentos com baixo custo. Ampliar o acesso a esse sistema — por meio de tecnologia e educação financeira — pode ajudar mais pessoas a participar do crescimento econômico. Com o tempo, esses avanços também podem trazer mais transparência e acesso a mercados privados, como infraestrutura e crédito privado, tradicionalmente restritos a grandes investidores.
Metade da população mundial já possui uma carteira digital no celular. Imagine se essa mesma carteira permitisse investir facilmente em um conjunto diversificado de empresas, no longo prazo — tão simples quanto fazer um pagamento. A tokenização pode acelerar esse futuro, modernizando a infraestrutura do sistema financeiro e tornando investimentos mais fáceis de emitir, negociar e acessar.
Começo esta carta destacando as forças que tornam essa discussão urgente: a reconfiguração do comércio global, a desigualdade crescente e o risco de a inteligência artificial ampliar ainda mais essa distância sem maior participação nos mercados.
Em seguida, apresentarei quatro exemplos — entre muitos — de como países já estão ampliando o acesso aos mercados e ajudando mais pessoas a crescer junto com suas economias.
A seção final aborda o trabalho da BlackRock com seus clientes, avançando nesses mesmos objetivos.
Por fim: escrever esta carta faz parte do meu dever com acionistas e clientes. Mas também é uma carta — e cartas existem para iniciar conversas. Espero que esta cumpra esse papel. Pretendo ouvir diferentes perspectivas e destacar aquelas que contribuam de forma significativa para o debate.
Tradução JORNAL PURO SANGUE.
