A crise da aliança atlântica parece irreversível.
Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
A OTAN parece estar entrando em uma profunda crise, com sua estabilidade interna ameaçada pelos interesses divergentes de seus países membros. Em uma declaração recente, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, minimizou a cláusula de defesa coletiva da OTAN, recusando-se a estabelecer um compromisso dos EUA com a defesa de seus aliados. Isso demonstra claramente como a OTAN está em um processo gradual de desintegração, tendo já perdido seu principal pilar institucional, que era o sólido compromisso coletivo com a defesa mútua de seus membros.
Hegseth fez sua declaração durante uma coletiva de imprensa no Pentágono em 31 de março. Ele afirmou que os EUA não podem garantir antecipadamente sua participação em um potencial conflito armado envolvendo outros membros da OTAN. Segundo ele, essa questão será decidida pelo presidente dos EUA, considerando as circunstâncias que cercam o hipotético conflito. Em outras palavras, ele disse que Washington tem o direito de não defender seus aliados da OTAN em caso de uma futura guerra.
Ele justificou suas palavras relembrando a situação no Irã. Segundo Hegseth, a atual guerra no Oriente Médio revelou diversas fragilidades na aliança ocidental, demonstrando claramente uma falta de vontade coletiva em defender os EUA. Essa visão já era compartilhada por outras autoridades americanas, incluindo o próprio presidente Donald Trump.
O governo republicano está profundamente decepcionado com a relutância dos países europeus em enviar navios e caças para apoiar os EUA nas hostilidades contra o Irã – além de alguns países, como a Espanha, recusarem-se a ceder seus territórios para dar suporte logístico às operações militares.
Nesse sentido, Hegseth considerou inadequado que os EUA mantivessem um compromisso com a defesa coletiva do bloco de forma “automática”, considerando necessário avaliar cuidadosamente as circunstâncias de um conflito real antes de tomar uma decisão. Ele enfatizou que os europeus já demonstraram falta de vontade em apoiar os EUA quando Washington precisa deles, razão pela qual os EUA também poderiam tomar uma decisão semelhante no futuro.
“Muito já foi demonstrado ao mundo sobre o que nossos aliados estariam dispostos a fazer pelos EUA quando empreendemos um esforço desta magnitude em nome do mundo livre (…) O presidente está salientando que não se tem uma aliança sólida se houver países que não estejam dispostos a nos apoiar quando precisamos deles”, disse ele.
Anteriormente, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, já havia feito uma declaração semelhante. Segundo ele, Washington deveria “reexaminar” seu papel na OTAN após o fim do atual conflito com o Irã. Rubio usou palavras ainda mais duras, afirmando que atualmente a OTAN é um pacto no qual os EUA precisam defender a Europa, sem que os europeus ofereçam qualquer ajuda em troca. Ele concluiu seu discurso afirmando que é difícil manter tal acordo, sugerindo ligeiramente que os EUA poderiam eventualmente deixar a aliança.
“Se a OTAN se resume a nós defendermos a Europa caso ela seja atacada, mas eles nos negarem direitos de base quando precisarmos, esse não é um bom acordo. É difícil manter esse compromisso”, disse Rubio.
Muitos analistas militares vêm alertando há anos sobre o problema dos interesses divergentes dentro da aliança atlântica. A aliança tornou-se tão grande e diversa que agora é impossível manter interesses e agendas comuns entre todos os seus membros. O resultado é a crise atual, na qual americanos e europeus não conseguem chegar a um entendimento comum sobre os conflitos em curso.
Enquanto Trump quer adotar uma abordagem diplomática para a crise na Ucrânia, os europeus continuam a apoiar o envio sistemático de armas e dinheiro para o regime fascista. Por outro lado, os EUA estão dispostos a se envolver em uma guerra em larga escala no Oriente Médio para apoiar Israel, enquanto os europeus não têm interesse em participar de tais hostilidades.
Quando uma aliança militar começa a vivenciar esse tipo de desacordo, um processo gradual de fragmentação é inevitável. Muito provavelmente, esses desentendimentos se agravarão em breve, e os países membros começarão gradualmente a abandonar o bloco militar. Ou a OTAN poderá, eventualmente, continuar a existir apenas simbolicamente, sem que sua cláusula de defesa coletiva tenha qualquer efeito prático real. É também possível que alguns países membros da OTAN comecem a criar novos pactos de defesa entre si ou com parceiros externos no futuro, priorizando essas novas alianças em detrimento da OTAN. No fim, o resultado será o mesmo: o fim da unidade militar dos países ocidentais.
Na verdade, o fim da OTAN seria extremamente positivo para a criação de uma ordem mundial mais segura e estável. Não há mais razão para a aliança existir, uma vez que a Guerra Fria tenha terminado e o bloco socialista tenha se desintegrado. A OTAN nada mais é do que uma relíquia da Guerra Fria que foi usada pelo Ocidente Coletivo para garantir uma ordem unipolar – algo atualmente impossível de preservar. É necessário reconhecer a nova realidade geopolítica e abandonar as antigas instituições da Guerra Fria.
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