Movimento de Solidariedade Íbero-americana
O economista Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras no governo Temer, costuma ser descrito pelos liberais como o gestor eficiente que “salvou a Petrobras da bancarrota” (um evidente exagero) e pelos nacionalistas como quem aprofundou a conversão da empresa em uma fábrica de dividendos (tendência que começou ainda no segundo mandato de Dilma Rousseff, com a presidência de Aldemir Bendini). Por isso, vale prestar atenção à sua entrevista à CNN Brasil, na qual explica a contradição de o Brasil ser um dos grandes exportadores de petróleo bruto e importador de derivados como diesel e querosene de aviação, cujos preços dispararam com a guerra no Golfo Pérsico.
Para ele, o problema está nas “escolhas políticas” sobre a empresa. O Brasil extrai hoje cerca de 4 milhões de barris por dia e seu consumo não chega à metade disso. Mas o País não tem refinarias capazes de produzir todos os derivados necessários, nem preparadas para processar o óleo leve do pré-sal, pois foram projetadas para o petróleo mais “pesado” predominante anteriormente.
De fato, a Petrobras tinha 13 refinarias antes da descoberta do pré-sal, em 2006, mas seus planos de expansão e adaptação do refino foram prejudicados pelo escândalo de corrupção política na empresa e pela decisão posterior do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), de obrigá-la a vender oito delas, das quais apenas três foram vendidas.
Uma delas, a de Mataripe, na Bahia, foi vendida ao fundo Mubadala dos Emirados Árabes Unidos e, com isso, o Brasil passou a ter um investidor estrangeiro na sua cadeia de refino – interessado apenas em maximizar lucros. Como diz Parente, forçar preços abaixo do mercado para fazer políticas públicas envia um recado péssimo a investidores como esse.
Parente explica que “o dono da Petrobras hoje, considerando a totalidade das ações, não é o governo, mas os acionistas minoritários”. Embora o governo detenha a maioria das ações orginárias, esse bloco representa hoje pouco mais de um terço do capital total da empresa. Ou seja, qualquer decisão que reduza o lucro da empresa e de seus reais controladores se torna “juridicamente problemático”.
E ele mesmo oferece a saída: fechar o capital da empresa, mesmo dizendo não concordar com isso. Mas, “se o governo quer fazer política pública, quer tomar prejuízo na empresa ou quer praticar preços que não levam a empresa a maximizar o seu resultado, fecha o capital da Petrobras, aí faz o que quiser”.
Como exemplo, ele cita a norueguesa Equinor. Efetivamente, uma empresa controlada pelo Estado norueguês, que pratica políticas majoritariamente orientadas para os interesses da sociedade do país.
Parente não chegou a esse ponto, mas, em algum momento próximo, o Brasil terá que decidir se pretende ter a sua maior empresa como um ativo estratégico fundamental para a reconstrução econômica e industrial do País ou se a mantém como uma fábrica de dividendos.
