Nos últimos meses, a Venezuela voltou ao centro do tabuleiro energético global. O que antes era um país submetido a um dos mais rígidos regimes de sanções do mundo passa agora por um processo gradual e estratégico de reabertura, marcado por novos acordos petrolíferos e pelo afrouxamento seletivo das restrições impostas pelos Estados Unidos.
O movimento não é trivial, que revela uma inflexão na política externa dos Estados Unidos e reposiciona a Venezuela como peça-chave em sua política de segurança energética hemisférica.
O símbolo mais visível dessa mudança é o avanço de acordos entre o governo de Delcy Rodríguez e grandes empresas do setor, especialmente a Chevron. Por esses acordos, a petrolífera estadunidense ampliou sua participação em projetos estratégicos na Faixa do Orinoco. Os entendimentos incluem a troca de ativos envolvendo um campo de gás por participação no bloco petrolífero Ayacucho 8. A exploração será feita pela Petropiar, uma empresa de joint-venture entre a estatal PDVSA e a Chevron.
Na prática, trata-se de uma reconfiguração do modelo petrolífero venezuelano, agora mais aberto ao capital estrangeiro, resultado direto da reforma da Lei de Hidrocarbonetos promovida em 2026, após a captura de Nicolás Maduro e a subida de Delcy Rodríguez ao poder. Pela nova lei, abriu-se espaço para a participação de empresas privadas para exploração, produção, transporte e comercialização de petróleo, tirando a centralidade da PDVSA nessas atividades, para atrair empresas estrangeiras para essas atividades.
Nesse sentido, a espanhola Repsol chegou a um acordo com a estatal venezuelana para aumentar a produção na empresa conjunta de ambos, a Petroquiriquire, da qual a PDVSA detém 60% do capital, sendo os outros 40% dos espanhóis.
Essa abertura à participação de atores externos busca recuperar a produção nacional e atrair dólares para uma economia ainda fragilizada. Hoje, empresas associadas à Chevron já respondem por cerca de um quarto da produção venezuelana, com potencial de crescimento acelerado.
Para a Venezuela, a abertura está condicionada ao aliviamento das sanções impostas ao país desde 2014, que atingiram toda a economia do país. Ainda não definitivamente derrubadas, o afrouxamento das sanções já permitem transações em dólar dos bancos estatais e a permissão de empresas estrangeiras de negociarem contratos em Caracas. Essas medidas ampliam o acesso da Venezuela ao sistema financeiro internacional, ainda que sob supervisão dos EUA.
Além disso, houve gestos políticos relevantes, como a retirada de sanções individuais contra lideranças do novo governo, sinalizando reconhecimento e abertura diplomática.
Essa reaproximação responde a três vetores estratégicos: a segurança energética, em um cenário geopolítico marcado por problemas nas rotas petrolíferas do Oriente Médio (Estreito de Ormuz); afirmação do poder dos EUA sobre os países do continente, reduzindo influência russa e chinesa e apoio político e econômico para o atual governo da Venezuela, considerando o impacto da questão dos emigrados no país sul-americano, incluindo migrantes nos EUA.
Mais do que tudo, o novo patamar das relações entre EUA e Venezuela indicam que o “sequestro” de Maduro, em um helicóptero da Força Delta estadunidense, parece muito mais um golpe branco, uma ruptura dentro do bolivarianismo que controla o país desde 1999, cujo marco, além da captura do ex-presidente, foi a eliminação de cerca de 30 agentes da inteligência cubana na operação do início de 2026.
Com a operação, o “regime” não foi mudado, ou seja, continua bolivariano na aparência, mas sua orientação política e geopolítica, sobretudo, se alterou, mais condizente com a retomada da Doutrina Monroe por Trump, de forma a pressionar os países do continente a se alinhar com Washington. O que se torna mais fácil pelo enfraquecimento dos governos de esquerda na região, materializada por vitórias eleitorais nos últimos anos de conservadores alinhados aos EUA em países como Equador, Chile, Peru e Argentina.
Quanto a Cuba, o afastamento com a Venezuela permite ao governo Trump intensificar sua pressão sobre a ilha, considerando que uma vitória sobre os “regimes rebeldes” do Hemisfério Ocidental parece muito mais simples do que as aventuras no Irã coordenadas por Israel. Por lá, o sionismo não aceita mudanças dentro do regime, mas não quer menos do que a derrubada da República Islâmica de Khomeini e Khamenei.
A conferir.
