Em entrevista ao portal eletrônico “The Cradle”, o analista de estratégia naval turco Cem Gurdeniz acredita que a tentativa de bloqueio naval dos EUA sobre o Irã teria consequências catastróficas para o mundo, com risco de um colapso econômico global, incluindo o colapso do sistema do petrodólar.
Não obstante, apesar das movimentações recentes de fragatas e porta-aviões para o Mar da Arábia, que circunda o Estreito de Ormuz, o analista não acredita que o bloqueio seja eficaz, citando uma declaração do almirante James Stavridis, da Marinha dos EUA, de que a imposição de um bloqueio naval seria algo extremamente exaustivo e difícil.
Além disso, a US Navy enfrenta, segundo ele, problemas estruturais como a redução da frota, menor capacidade de sua indústria naval em relação à China e que muitos sistemas usados pela força estão obsoletos. Nas simulações de jogos de guerra, no caso de intervenção direta militar no Irã, as baixas seriam muito grandes para a Marinha dos EUA.
Gurdeniz também salientou o papel da resistência e resiliência dos iranianos, quanto aos ataques conjuntos dos EUA e de Israel. “A resistência do Irã é a resistência nossa, de todas as nações honradas”, afirmou. Para ele, há uma percepção interna nesse país de que, apesar das divisões internas a respeito do apoio ao regime político, o Irã sofre uma pressão externa que historicamente nunca lhe foi favorável, relembrando o golpe contra Mossadegh em 1953 e os conflitos que se seguiram à queda do Xá e à guerra contra o Iraque.
Perguntado sobre a ausência britânica no conflito, dada a recusa do governo de Keir Strarmer em se envolver, Gurdeniz atribui essa postura ao declínio do Reino Unido como potência naval. Lembra que este teve que recuar de um embate naval com a Rússia, quando os britânicos começaram a abordar cargueiros russos, perto das águas territoriais britânicas, que estariam fazendo transporte de petróleo sob sanções econômicas. Em resposta, a Rússia passou a enviar fragatas junto aos cargueiros, tendo algumas passado pelo Canal da Mancha, sem que a marinha britânica pudesse intervir.
Faz alusão também ao HMS Dragon, da marinha britânica, enviado ao Chipre, no início do conflito deste ano, mas que teve que regressar ao país por problemas técnicos. Fatos como esse expõem que essa força outrora temível não tem mais o poder de intimidar terceiros países. “Em comparação com o seu poderio naval do pós-Segunda Guerra Mundial, que contava com mais de mil navios, a Grã-Bretanha opera hoje uma frota muito menor, com capacidade limitada na linha de frente. Na prática, mesmo sob pressão dos Estados Unidos, a capacidade da Grã-Bretanha de agir de forma independente é significativamente limitada”, segundo o analista turco.
Cem Gurdeniz também acredita que estamos testemunhando a eclosão da Terceira Guerra Mundial, ainda que de forma (ainda) de um conflito de baixa intensidade e de forma híbrida. “A razão pela qual chamamos isso de ‘guerra mundial’ é que as guerras mundiais alteram a ordem global. E, neste momento, a ordem está mudando. A guerra na Ucrânia é uma das frentes. O Irã é outra frente. Isso não significa necessariamente que seja igual ao período de 1939–45, pois o mundo hoje é diferente”, defende.
Sobre a OTAN, bloco militar do qual seu país faz parte, acredita que está em estágio de fragmentação, ocasionada por divisões políticas acentuadas desde a Guerra da Ucrânia, em que as divergências políticas e estratégicas entre os EUA e os europeus estão cada vez mais acentuadas.
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