Lorenzo Carrasco
Em um oportuno artigo intitulado “A falácia mecanicista – por que o Ocidente falha na geopolítica com tanta frequência”, o ex-diplomata e ex-analista do MI-6 britânico Alastair Crooke afirma sem rodeios que a lente da racionalidade secular do Ocidente não é adequada para entender o conflito Israel-Palestina. Para ele, é evidente que o futuro da região está sendo cada vez mais decidido por símbolos religiosos – “[a mesquita de] Al-Aqsa versus o Terceiro Templo”.
Crooke com a palavra: “(…) Em Israel, as eleições nacionais de novembro de 2022 trouxeram uma nova liderança comprometida com a fundação de Israel na ‘Terra de (Grande) Israel’, deslocando a população não judaica e implementando a lei haláquica [referente aos costumes ditados na Torá e pela tradição rabínica].
“A plataforma do novo governo era uma expressão de um propósito escatológico e messiânico, com uma teleologia de buscar um caminho rumo à Redenção messiânica. Não era secular, nem expressa em tons iluministas.
“Meu argumento… é que as formas de pensar seculares e mecanicistas ocidentais não compreendem essas mudanças fundamentais. O Ocidente insiste em aplicar seus preceitos conceituais ocidentalizados a algo — o messianismo e a busca pela Redenção — que está fora do escopo da consciência ocidental pós-moderna de hoje. Entendemos bem a política de poder, mas a escatologia é, em grande parte, um livro fechado para a maioria dos ocidentais seculares.”
Por outro lado, ele afirma que “os próprios EUA estão longe de serem imunes às correntes do idealismo messiânico, do milenarismo e do maniqueísmo”. Citando o historiador Michael Vlahos, observa: “Desde a sua fundação, os EUA têm buscado, com fervor religioso ardente, um chamado superior para redimir a humanidade, punir os ímpios e batizar um milênio de ouro na Terra. A América tem se mantido firme em sua visão única de missão divina como o ‘Novo Israel de Deus’.”
Quer dizer, “os EUA não são apenas ‘messiânicos’ em caráter… mas manifestam uma visão implicitamente bíblica, proclamando a sua fé na natureza predestinada de sua passagem. Uma ‘nação escolhida’, divinamente eleita para agir em nome da Providência como Redentora do mundo.”
Não obstante, o que Alastair Crooke sinaliza é o fim da era dominada pela supremacia do pensamento mecanicista consolidado pelo Iluminismo ocidental, grosso modo, os últimos três séculos e meio. Sistema que, cada vez mais se mostra incapaz de explicar fenômenos que apontam para a metafísica, inclusive a própria revolução islâmica e a consequente resiliência do Irã no embate com duas das maiores potência bélicas do mundo, o ressurgimento da Rússia ortodoxa e a expansão do catolicismo nos próprios EUA, em grande medida, impulsionada pela imigração hispânica.
Em essência, uma encruzilhada entre uma multipolaridade real e o “fim dos tempos” ansiado e trabalhado por fundamentalistas travestidos de vanguardistas da civilização.
