Suleyman Karan
Os mercados globais de energia estão lutando para absorver o choque da guerra no Oeste Asiático. A interrupção de quase 20 milhões de barris por dia (bpd) de exportações de petróleo bruto e derivados, combinada com a limitada capacidade de contornar o Estreito de Ormuz, colocou tanto produtores quanto economias dependentes de importações sob forte pressão.
A questão vai além de cadeias de suprimento rompidas. A escalada de preços nos mercados de petróleo e petroquímicos já começou a se propagar.
Desde a guerra EUA-Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, os preços do petróleo subiram de cerca de US$ 70 por barril para aproximadamente US$ 120 no final de abril, com os produtos refinados subindo ainda mais rapidamente em meio ao aperto da oferta e às dificuldades logísticas.
Mercados de combustíveis sob pressão
O fechamento de Ormuz forçou refinarias voltadas à exportação a reduzir operações ou interromper completamente a produção à medida que a capacidade de armazenamento se esgota. Mais de 4 milhões de bpd de capacidade de refino estão agora em risco.
Embora a produção em outras regiões possa teoricamente compensar, restrições de transporte e de oferta limitam até onde esse ajuste pode ir.
A pressão mais imediata surgiu no diesel e no combustível de aviação. O que começou como alertas da Agência Internacional de Energia (AIE) se transformou em disrupções concretas. A companhia aérea alemã Lufthansa já anunciou o cancelamento de 20 mil voos devido à escassez de combustível, enquanto a holandesa Transavia também reduziu sua programação para maio e junho. Dados da IATA mostram que os preços do combustível de aviação na Europa subiram mais de 105% em relação ao ano anterior.
A queda no fornecimento de gás liquefeito de petróleo (GLP) e nafta forçou produtores petroquímicos a reduzir a produção de polímeros, ampliando as perdas no setor. Países consumidores passaram a recorrer a estoques existentes para amortecer o impacto. Os estoques globais de petróleo bruto e derivados estão em torno de 8,2 bilhões de barris, sendo aproximadamente metade detida por países da OCDE.
Os membros da AIE concordaram em março em liberar 400 milhões de barris de reservas emergenciais, mas tais medidas apenas adiam disrupções mais profundas. Quantidade que não resolve os danos estruturais em curso nas redes de produção e distribuição.
Danos à infraestrutura energética
A escala dos danos à infraestrutura energética no Golfo Pérsico é significativa. Fatih Birol, diretor executivo da AIE, alertou que a produção perdida pode levar cerca de dois anos para ser recuperada. Remessas vinculadas a contratos anteriores à guerra continuam, mas novos carregamentos de petroleiros foram interrompidos em março, cortando fluxos para a Ásia.
Os países produtores do Golfo estão absorvendo o maior impacto. Instalações foram atingidas, a produção caiu e as perdas aumentam diariamente. Ainda não é possível fazer uma avaliação completa dos danos, embora as projeções indiquem que a recuperação levará vários anos.
A capacidade produtiva da Arábia Saudita sofreu danos mensuráveis. O Catar perdeu quase um quinto de sua produção de GNL. Em toda a região, cerca de 2,4 milhões de bpd de capacidade de refino estão fora de operação. Cerca de 10% da produção global de petróleo permanece interrompida — um déficit que não pode ser compensado enquanto Ormuz permanecer fechado.
Mesmo com cessar-fogo e reabertura do estreito, os mercados levariam pelo menos seis meses para se estabilizar.
Alternativas limitadas
A Arábia Saudita confirmou uma redução de 600 mil bpd na capacidade de produção e uma queda de 700 mil barris no fluxo pelo oleoduto Leste-Oeste. Essa rota, que liga os campos do Golfo ao Mar Vermelho, tem sido fundamental para a manutenção das exportações. Os danos causados a uma estação de bombeamento logo após o anúncio do cessar-fogo destacaram sua vulnerabilidade.
Novas paralisações nos campos de Manifa e Hurays reduziram a produção em cerca de 300 mil bpd. No total, a capacidade de produção da Arábia Saudita caiu pelo menos 5%. Mesmo que o Estreito de Ormuz seja reaberto, o reino terá dificuldades para compensar totalmente os volumes perdidos.
O Catar também sofreu danos significativos. O complexo industrial de Ras Laffan foi atingido, e cerca de 17% da capacidade de exportação de GNL foi comprometida, com recuperação estimada entre três e cinco anos.
Uma planta de conversão gás-liquido operada com a Shell também foi atingida, reduzindo a capacidade por pelo menos um ano. Prevê-se agora uma perda anual de cerca de 12,8 milhões de toneladas de GNL.
Fraturas na OPEP e impactos regionais
A decisão dos Emirados Árabes Unidos de deixar a OPEP marca uma mudança significativa dentro do bloco energético. Tanto as pressões econômicas quanto as tensões políticas parecem ter influenciado essa decisão. A insatisfação de longa data com as cotas de produção se somou às dificuldades econômicas impostas pela guerra.
É provável que a saída agrave as tensões com a Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que levanta questões mais amplas sobre a coesão da própria OPEP. Não seria exagero afirmar que Dubai não tomou essa decisão sozinha. Ela deve ser vista como uma nova fase nos planos de Washington e Tel Aviv para criar uma ruptura no Golfo e enfraquecer o status de cartel da OPEP. Com a decisão entrando em vigor hoje, os Emirados Árabes Unidos encerram sua participação de 58 anos no cartel.
O conflito também revelou vulnerabilidades na própria infraestrutura energética dos Emirados Árabes Unidos. A Refinaria de Ruwais, com capacidade para 922.000 bpd, foi um dos primeiros alvos. As operações de processamento de gás em Habshan foram suspensas várias vezes, enquanto explosões em campos offshore interromperam a produção.
O Porto de Fujairah permitiu que as exportações continuassem por fora do Estreito de Ormuz, mas os repetidos ataques a instalações de armazenamento e transporte forçaram paralisações intermitentes. A gravidade das interrupções teria sido muito maior sem essa rota alternativa.
As fontes de energia vitais de uma região sob pressão
As refinarias Mina al-Ahmadi e Mina Abdullah, no Kuwait, sofreram repetidos ataques, mas continuam em operação. Antes da guerra, ambas eram importantes fornecedoras de combustível de aviação para a Europa e de produtos refinados para a Ásia. As interrupções nesses fluxos intensificaram as preocupações com o abastecimento em ambas as regiões.
O Iraque, segundo maior produtor de petróleo da OPEP, tem sido um dos países mais afetados devido à falta de rotas alternativas de exportação. O fechamento efetivo do estreito obrigou o país a interromper mais de três quartos de sua produção, reduzindo a produção de 4,3 milhões de barris por dia para cerca de 800 mil.
Os ataques à infraestrutura, incluindo o campo de Rumaila, agravaram a crise. As divisões internas do Iraque complicam ainda mais o quadro, com atores rivais apoiados por potências regionais. Mesmo que o conflito atual se acalme, o país continua exposto a uma nova onda de instabilidade.
O Irã sofreu vários ataques contra depósitos de combustível e instalações energéticas, incluindo ataques ao campo de gás de South Pars. Embora a principal infraestrutura de exportação na Ilha de Kharg tenha escapado em grande parte a danos, várias unidades de produção foram desativadas.
Apesar das pressões econômicas, a guerra gerou um certo grau de consolidação interna. A fase mais difícil poderá surgir após o fim das hostilidades, quando o país terá de tentar estabilizar tanto a economia quanto o setor energético.
Omã sofreu perturbações relativamente limitadas e poderá sair desta situação em uma posição mais estável do que seus vizinhos. As operações no Porto de Salalah foram afetadas, levando a Maersk a suspender suas atividades, mas a extensão dos danos permanece contida.
O Bahrein apresenta um caso diferente, tendo declarado força maior em 9 de março, após um ataque à Refinaria de Sitra, o que levou ao fechamento efetivo das operações. Os danos são graves, e a recuperação total pode levar meses. Mais urgente para o Bahrein é a agitação interna, com as tensões entre a minoria sunita no poder e a maioria xiita gerando receios de uma nova revolta.
Repercussões globais
O impacto do conflito se estende muito além do Golfo. As economias emergentes do Sul da Ásia e o Japão têm arcado com alguns dos custos mais elevados, como era de se esperar. A China parece estar em melhor posição, beneficiando-se, em parte, de sua preparação e do enfraquecimento relativo dos concorrentes regionais.
As tensões no Estreito de Malaca acrescentam mais um fator de incerteza, aumentando a possibilidade de novas interrupções nas rotas comerciais globais.
A Europa também deverá arcar com uma parte significativa desse ônus. Os custos da energia já dispararam desde o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e a crise atual agrava tanto a escassez de oferta quanto a pressão sobre os preços.
Em contrapartida, as economias ricas em recursos energéticos nas Américas estão mais protegidas, enquanto os países dependentes de importações enfrentam pressões crescentes. A África reflete uma divisão semelhante, com produtores como a Argélia e a Nigéria em posição de se beneficiar, enquanto outros permanecem vulneráveis.
Incerteza no longo prazo
Os danos causados pela crise do Estreito de Ormuz levarão pelo menos dois anos para serem superados, e provavelmente mais tempo ainda. As previsões de crescimento global para 2026 já estão sendo revisadas para baixo.
Mesmo em condições relativamente estáveis, o custo econômico pesará fortemente sobre os produtores do Golfo, bem como sobre as economias asiáticas e europeias. O crescimento mais lento no Leste e no Sul da Ásia, em particular, cria implicações mais amplas para a demanda global.
É improvável que os preços do petróleo bruto voltem, num futuro próximo, aos níveis pré-guerra, próximos dos US$ 70. Os custos de transporte, seguro e frete permanecerão elevados, contribuindo para uma inflação mais generalizada dos preços das commodities. Espera-se que, como resultado, as fragilidades do sistema financeiro global se agravem.
À medida que um novo equilíbrio começa a tomar forma, parece provável que surjam novas tensões. As consequências a longo prazo podem ir além dos mercados de energia, somando-se às pressões climáticas que continuam a se intensificar em segundo plano.
Artigo publicado no portal The Cradle.
Tradução JORNAL PURO SANGUE.
