Lorenzo Carrasco
Na edição do último domingo, o “Estado de S. Paulo” publicou com destaque uma reportagem intitulada “Brasil fica para trás e amplia distância de PIB per capita em relação ao mundo”, na qual observa que o “País deixou de acompanhar o avanço global desde os anos 1980 e hoje tem renda per capita abaixo da média mundial”.
Diz o texto de Luiz Guilherme Gerbelli:
“O brasileiro ficou para trás nos últimos 45 anos. Preso na chamada armadilha da renda média, o País viu o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita global superar, de forma consistente, seu ritmo. Pior: o desempenho econômico recente tem sido insuficiente para reduzir essa diferença.
“Entre 1980 e 2025, o PIB per capita global subiu de US$ 3.380,47 para US$ 26.188,94, um aumento de 675%, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). No mesmo período, o Brasil saiu de US$ 4.427,94 para US$ 23.380,98, alta de 428%.
“Os números estão calculados em Paridade do Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), o que torna mais justa a comparação entre países e grupos econômicos. Na prática, o indicador mostra que o poder de compra do brasileiro cresceu menos do que o da média mundial nas últimas décadas.”
O diagnóstico é preciso, mas a explicação reflete o tradicional e caolho viés ultraliberal e internacionalista do jornalão fundado pela família Mesquita, hoje controlado por altos próceres da Faria Lima.
Um dos especialistas entrevistados, o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, diz que houve uma “quebra” no ritmo de crescimento do Brasil a partir de 1981: “Não conseguimos resgatar aquele ímpeto de crescimento que tínhamos até os anos 1970. Dos anos 1980 até o Plano Real, foram quase 15 anos de crise profunda. De partida, já perdemos todos esses anos. Do Plano Real para frente, foi correr atrás do prejuízo. Nós fizemos várias reformas, mas não avançamos em diversas outras.”
Gerbelli acrescenta: “De fato, são vários os fatores que explicam a baixa produtividade brasileira. Eles envolvem desde uma economia pouco integrada ao resto do mundo até um ambiente de negócios pouco amigável e caro, além de incentivos econômicos inadequados e baixa qualificação da mão de obra.”
Aqui, aparece o surrado fetiche dos liberais brasileiros acorrentados à sua ideologia, o de que a economia brasileira seria “pouco integrada ao resto do mundo”. Isto, num País em que mais de 70% das empresas industriais são controladas por estrangeiros e onde se pode importar de tudo, de alpiste a plataformas petrolíferas.
Outro entrevistado, Fernando Veloso, diretor de Pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, lamenta que a produtividade da indústria e do setor de serviços não cresce desde 1995. E pontifica:
“O Brasil perdeu o período áureo da globalização. O País fez a abertura comercial na primeira metade dos anos 1990 e ficou mais ou menos em linha com outras economias emergentes. Mas, depois, não fez mais nada. Eu acho até que houve retrocessos, porque houve muitas políticas de proteção de conteúdo local para o setor de petróleo, para a indústria naval… O País perdeu o bonde da globalização e corre o risco de perder o bonde da inteligência artificial.”
Ora, o Brasil não “perdeu o bonde da globalização”. Ao contrário, a partir do governo de Fernando Collor de Mello e, principalmente, Fernando Henrique Cardoso, foi um dos países que mais dócil e passivamente se inseriu na globalização definida pela abertura incondicional aos fluxos financeiros especulativos internacionais, que aqui aportaram muito mais interessados em lucrar com a arbitragem com juros estratosféricos e o câmbio flutuante, do que em investir em atividades produtivas.
Na época, FHC gabava-se de que seu governo estava “rearticulando o sistema produtivo do Brasil”, para que “os setores mais dinâmicos do capitalismo tenham prevalência”, como admitiu numa entrevista à Folha de S. Paulo de 13 de outubro de 1996.
Na entrega da economia nacional aos apetites volúveis dos mercados financeiros, foi abandonada toda a estrutura de planejamento do Estado, grandemente responsável pelos avanços do período áureo de 1930 a 1980, mas desprezada como parte do “entulho autoritário” dos governos militares e um anacronismo na nova era da globalização.
Será coincidência o fato de a produtividade da indústria e dos serviços estar estagnada desde então? Será um acaso a acelerada desindustrialização do País?
O resultado está à vista de todos: um País descerebrado, desorientado, empobrecido e acorrentado a uma ideologia que só serviu para convertê-lo numa grande fábrica de juros e dividendos.
