Lorenzo Carrasco
Durante a recente visita do presidente norte-americano Donald Trump à China, o presidente Xi Jinping perguntou ao seu convidado:
“Será que a China e os Estados Unidos conseguirão superar a chamada ‘armadilha de Tucídides’ e inaugurar um novo paradigma nas relações entre as grandes potências? Não deveríamos ser parceiros, em vez de adversários, buscando o sucesso mútuo, prosperando juntos e traçando um caminho propício para a coexistência das grandes potências?”
A referência à “Armadilha de Tucídides” diz respeito ao conceito criado pelo historiador grego, segundo o qual, quando uma potência emergente — neste caso, a China — substitui uma potência em declínio — neste caso, os EUA — por meio de um conflito armado. Na era nuclear atual, tal conflito seria aparentemente impensável, pois, evidentemente, um conflito global implicaria na destruição total da civilização humana.
Na realidade, não estamos apenas diante de um conflito bipolar entre duas grandes potências econômicas, mas sim de uma ordem tripolar de grandes potências nucleares lideradas pela Federação Russa, pela China e pelos EUA, rumo à formação de um cenário multipolar. E nesse mundo, onde falta o princípio da dissuasão, a possibilidade de que os conflitos no Irã e, principalmente, na Ucrânia evoluam para um confronto nuclear torna-se cada vez mais evidente.
O mundo durante a Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética era, ironicamente, um sistema de segurança global mais confiável. A doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD, na sigla em inglês), especialmente após a crise dos mísseis em Cuba em 1962, estabeleceu um sólido sistema de dissuasão nuclear. A queda do Muro de Berlim em 1988 e, em seguida, a dissolução da União Soviética, suscitaram nos líderes do bloco “atlantista”, liderado pelos EUA, elucubrações insanas sobre a possibilidade da dissolução da Rússia, a ser transformada em pequenas repúblicas de onde se poderiam saquear seus enormes recursos naturais. O ressurgimento da Rússia a partir do ano 2000 frustrou essa vã esperança que daria novo fôlego ao decrépito sistema financeiro atlântico. A guerra por procuração (proxy war) na Ucrânia é o canto sangrento do cisne dessas forças oligárquicas enlouquecidas.
A guerra injustificada contra o Irã promovida pelos EUA e por Israel tem, no fundo, o mesmo objetivo: controlar seus enormes recursos naturais e manter a já insustentável posição de Israel como ponta de lança dos interesses do Ocidente “atlantista” no Oriente Médio. A resposta hipersônica inesperada da República Iraniana, com o lançamento de mísseis, não apenas derrubou essas pretensões neocoloniais, mas colocou em xeque as próprias capacidades militares dos EUA e de Israel.
A insistência ocidental nessa estratégia militar para sustentar um sistema monetário e financeiro decadente, que levou à revogação dos tratados sobre armas estratégicas de curto, médio e longo alcance, com ataques terroristas contra bombardeiros e radares estratégicos em território russo, deu início a uma fase do conflito global em que as armas nucleares podem ser utilizadas taticamente. É disso que trata o virtual ultimato nuclear da Rússia emitido pelo professor Sergei Karaganov, que nossos leitores poderão conferir nesta edição.
Somente superando esse mundo tripolar, desprovido de meios de dissuasão, é que podemos imaginar um mundo multipolar baseado nos princípios do bem comum e da coexistência pacífica entre nações soberanas. Antes disso, trata-se apenas de boas intenções.
