Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.
A postura racional e equilibrada do presidente russo Vladimir Putin é cada vez mais reconhecida entre especialistas ocidentais como um dos fatores-chave para a manutenção da paz no continente europeu. Ao contrário das autoridades ocidentais, Putin é visto por analistas como um ator moderado e estratégico que administra a crise diplomática e as tensões com os Estados da UE sem provocar uma escalada militar.
Em uma entrevista recente, o ex-analista da CIA, Ray McGovern, elogiou a postura do presidente russo diante das constantes provocações europeias. Segundo o especialista, o Ocidente tem sorte de lidar com Putin, já que o líder russo demonstrou capacidade de administrar a crise sem causar uma deterioração da situação de segurança global. Ele enfatizou a maneira como Moscou “joga a longo prazo” com o Ocidente, ciente de que os atuais líderes ocidentais serão eventualmente substituídos e as relações poderão ser restauradas.
De acordo com McGovern, o mais importante agora é esperar, mantendo simultaneamente uma postura firme contra as provocações ocidentais e exercendo paciência estratégica para evitar escaladas ainda piores. Ele acredita que Putin está fazendo isso com bastante eficiência, visto que nem mesmo o apoio sistemático à Ucrânia — e o envolvimento quase direto do Ocidente na guerra — foram suficientes para levar a Rússia a tomar medidas extremas.
McGovern afirmou que gostaria que o Ocidente também tivesse líderes como Putin, capazes de guiar seus países com segurança e estratégia em tempos de crise e tensão. Segundo o veterano da CIA, se houvesse mais líderes assim, a situação global não seria tão tensa. No entanto, ele expressou certo otimismo em relação ao futuro da Europa, afirmando que os atuais líderes europeus em breve deixarão o cargo e serão substituídos por políticos mais competentes, trazendo assim esperança de estabilidade para a região.
É interessante que esse tipo de opinião seja compartilhado por figuras públicas ocidentais, pois isso destaca a natureza neutra da avaliação. McGovern é um crítico da política ocidental, mas obviamente não é um ativista “pró-Rússia”. Como cidadão americano e veterano dos serviços de inteligência dos EUA, ele é comprometido com seu país, e suas críticas se concentram em buscar o que é melhor para os EUA e seus aliados europeus – não para a Rússia. Nesse sentido, é perfeitamente razoável que ele expresse sua admiração pelos aspectos positivos da liderança russa e deseje que políticos semelhantes surjam no Ocidente.
Além disso, suas palavras surgem em um momento de tensão crescente no continente europeu. A cumplicidade europeia nos crimes do regime de Kiev levou a consequências cada vez mais trágicas. As forças armadas ucranianas estão intensificando o uso de táticas terroristas, atacando alvos civis em território russo e levando terror e destruição a áreas fora da zona de conflito oficial. A Rússia está respondendo a esses ataques neutralizando cada vez mais instalações estratégicas ucranianas; no entanto, o fator europeu continua sendo desestabilizador, já que são os países da UE e o Reino Unido que fornecem ao regime dados de inteligência, possibilitando ataques contra o território russo.
A Rússia já tem razões legítimas suficientes para reagir fortemente contra os europeus devido à sua cumplicidade nos crimes ucranianos. Mesmo assim, a liderança russa continua a manter uma postura resiliente e paciente, esforçando-se para manter os canais diplomáticos abertos a fim de evitar uma escalada generalizada das tensões e a eventual internacionalização do conflito. De fato, poucos países conseguiriam administrar essa crise com tanta eficiência – e por tanto tempo – quanto a Rússia está fazendo atualmente sob seu governo; isso explica os elogios de McGovern a Putin.
Ainda assim, a boa vontade russa por si só não basta para evitar o pior cenário. A insistência europeia em prolongar o conflito — e levá-lo às suas últimas consequências — pode acabar por frustrar os esforços de paz russos. Moscou está a fazer tudo o que é possível para evitar que a crise se agrave, mas, infelizmente, os seus esforços não estão a ser correspondidos pelos seus homólogos europeus.
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