A sequência de encontros realizados por Xi Jinping em maio de 2026 — primeiro com Donald Trump e, poucos dias depois, com Vladimir Putin — ofereceu uma rara demonstração pública da estratégia chinesa diante da transformação da ordem internacional. Embora ambos os eventos tenham ocorrido em Pequim e envolvido chefes de grandes potências militares e nucleares, o tom, os objetivos e o conteúdo político das duas cúpulas revelaram contrastes profundos sobre o atual posicionamento da China no sistema global.
A reunião entre Xi Jinping e Donald Trump foi marcada por um clima de administração de tensões. Tratou-se de um encontro pragmático, centrado sobretudo em evitar o agravamento da rivalidade em temas como comércio, tecnologia, Taiwan e segurança marítima. Apesar da forte simbologia diplomática e do aparato cerimonial oferecido por Pequim, a cúpula expôs a profundidade das divergências estratégicas entre os dois países. A relação China–Estados Unidos aparece hoje como uma disputa estrutural pela liderança tecnológica, industrial, financeira e militar do século XXI.
Nesse contexto, temas como semicondutores, inteligência artificial, terras raras e cadeias globais de suprimento ocuparam posição central. A questão de Taiwan permaneceu como principal ponto de atrito, com Xi reforçando que a ilha constitui uma “linha vermelha” para Pequim. O líder chinês afirmou que qualquer mudança na política norte-americana poderia gerar “conflito” e comprometer toda a relação entre os países, enquanto Trump manteve ambiguidade estratégica sobre defesa da ilha e indicou que futuras vendas de armas poderiam ser usadas como instrumento de negociação com Pequim.
Um efeito prático da posição firme chinesa quanto à política dos EUA para Taiwan: o secretário interino da Marinha, Hung Cao, confirmou perante o Subcomitê de Defesa do Senado dos EUA que os envios de armas para Taiwan foram suspensos para garantir munições necessárias para operação contra o Irã, embora tenha esclarecido que seu país tem munições suficientes.
Quanto à questão do Irã, Washington buscou apoio chinês para pressionar Teerã a negociar e garantir a reabertura e estabilidade do Estreito de Ormuz, vital para o fluxo global de petróleo. Já a China demonstrou cautela: embora defendendo a livre navegação na região afetada, evitou adotar posição alinhada aos EUA contra o Irã, seu parceiro estratégico no Oriente Médio.
A reunião com Vladimir Putin apresentou uma lógica completamente distinta. Enquanto o encontro com Trump buscava administrar uma competição sistêmica, a cúpula sino-russa teve caráter claramente estratégico e convergente. Xi e Putin enfatizaram repetidamente a ideia de um mundo multipolar e criticaram abertamente a hegemonia norte-americana, especialmente no campo militar e financeiro.
Diferentemente da relação com os EUA, marcada pela desconfiança estrutural, a parceria estratégica sino-russa foi apresentada como um eixo de estabilidade geopolítica diante do avanço da OTAN, das sanções ocidentais e das tentativas de contenção simultânea da Rússia e da China. O encontro reforçou a cooperação energética, tecnológica e diplomática entre os dois países, com destaque para o projeto do gasoduto Power of Siberia 2, considerado vital para Moscou após a perda parcial do mercado europeu de gás.
Sobre o Power of Siberia 2, trata-se de um megaprojeto de gasoduto planejado para conectar os campos de gás natural da Sibéria Ocidental, na Rússia, ao mercado chinês através da Mongólia. O empreendimento é considerado uma das iniciativas energéticas mais estratégicas da aproximação entre Rússia e China nas últimas décadas, com a capacidade de fornecer à China o mesmo volume de gás que a Rússia oferecia aos europeus antes da guerra na Ucrânia.
Outro contraste nas duas reuniões de cúpula importante reside no simbolismo político. Com Trump, Pequim buscou transmitir a imagem de uma potência responsável, capaz de dialogar com seu principal rival estratégico sem romper completamente os canais diplomáticos. Já a recepção a Putin teve forte conteúdo ideológico e geopolítico: representou uma demonstração pública de alinhamento contra a ordem internacional liderada pelos EUA.
Ao mesmo tempo, as duas cúpulas também revelaram a posição singular que a China ocupa atualmente. Pequim tornou-se a única potência capaz de dialogar simultaneamente com Washington e Moscou em nível estratégico, preservando relações econômicas profundas com os EUA enquanto amplia sua coordenação política e energética com a Rússia.
Essa dualidade evidencia a essência da estratégia chinesa contemporânea: evitar um confronto direto prematuro com os Estados Unidos, enquanto fortalece gradualmente uma arquitetura de poder internacional alternativa, baseada na multipolaridade, na integração eurasiática e na redução da dependência do sistema financeiro ocidental.
Em última análise, os dois encontros mostraram que a China busca atuar simultaneamente em duas frentes. De um lado, administra sua rivalidade com os EUA para evitar uma ruptura descontrolada da economia global. De outro, aprofunda sua aproximação estratégica com a Rússia como forma de acelerar a transição para uma nova configuração de poder internacional.
