A recente confirmação do primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, de que áreas estratégicas do litoral do país foram adquiridas por investidores estrangeiros reacendeu um intenso debate sobre soberania nacional, investimentos internacionais e a crescente aproximação com Israel.
No centro da controvérsia está a venda de ativos localizados na Ilha de Sazan, em Zvernec e na Lagoa de Narta, regiões consideradas de grande valor ambiental, turístico e estratégico. Segundo Rama, os terrenos passaram a pertencer legalmente aos investidores que os adquiriram, entre eles um consórcio liderado pela empresa Affinity Partners, do empresário norte-americano Jared Kushner.
Kushner é genro de Donald Trump, casado com Ivanka. Comprou a ilha de Sazan para, supostamente, montar um empreendimento de luxo, em um local que abrigou uma base militar desde a Segunda Guerra Mundial. A Albânia é conhecida internacionalmente por um ser um país pequeno mas com uma imensa quantidade de bunkers a serem usados em caso de guerra nuclear no continente europeu, construídos durante o regime comunista de Enver Hoxa.
A declaração provocou protestos em diferentes partes da Albânia, sobretudo na capital Tirana. Críticos do governo argumentam que a operação representa uma transferência de patrimônio nacional para interesses estrangeiros, enquanto apoiadores destacam o potencial dos investimentos para impulsionar o turismo, a infraestrutura e o desenvolvimento econômico do país.
O debate ganhou contornos geopolíticos devido à estreita relação entre o governo de Edi Rama e Israel. O premiê albanês mantém laços próximos com autoridades israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que já o descreveu como um amigo pessoal. Em abril de 2025, Rama recebeu a Medalha Presidencial de Honra de Israel, concedida pelo presidente Isaac Herzog.
A aproximação tornou-se ainda mais evidente em janeiro de 2026, quando Rama discursou no Knesset, o parlamento israelense. Na ocasião, reafirmou o apoio da Albânia a Israel, elogiou os Acordos de Abraão e condenou os ataques do Hamas, posicionamentos que foram recebidos com aplausos pelos parlamentares israelenses.
As relações entre os dois países vêm se fortalecendo ao longo da última década. Embora a Albânia seja um país de maioria muçulmana secularizada, mantém relações diplomáticas com Israel desde os anos 1990. Sob a liderança de Rama, essa cooperação expandiu-se para diversas áreas, incluindo defesa, tecnologia e investimentos.
No setor militar, a Albânia adquiriu equipamentos produzidos pela empresa israelense Elbit Systems, incluindo obuseiros autopropulsados ATMOS, sistemas móveis de morteiros SPEAR e drones táticos. A companhia também participa de programas de treinamento de pilotos e capacitação militar no país.
A cooperação econômica também tem avançado. Um dos projetos mais relevantes é a construção de um centro de dados de 32 megawatts próximo a Tirana, desenvolvido por um consórcio com participação israelense. O empreendimento, avaliado em cerca de 117 milhões de dólares, busca transformar a Albânia em um polo tecnológico regional.
Outro tema frequentemente citado nas discussões sobre política externa albanesa é a presença, em território do país, de integrantes do grupo oposicionista iraniano Mujahedeen Khalq (MEK). A organização mantém instalações próximas a Tirana e sua atuação tem sido objeto de atenção por parte de governos e analistas internacionais devido à sua histórica oposição ao governo iraniano.
Paralelamente, o litoral albanês tem atraído crescente interesse de investidores estrangeiros. Com custos relativamente baixos em comparação a outros destinos mediterrâneos e uma posição estratégica entre os Bálcãs e a Europa Ocidental, o país tornou-se um destino cada vez mais procurado para projetos imobiliários, turísticos e tecnológicos.
Nesse contexto, o governo de Edi Rama argumenta que a entrada de capital internacional é essencial para acelerar o desenvolvimento econômico e modernizar a infraestrutura nacional. Já setores da oposição e parte da sociedade civil sustentam que a venda de áreas consideradas estratégicas pode reduzir a capacidade do Estado de controlar ativos de importância nacional.
