Lorenzo Carrasco
Refletindo uma visão compartilhada por grande parte da mídia ocidental, em 16 de junho, o jornal “Estado de S. Paulo” publicou um editorial verdadeiramente ultrajante (“Muito barulho por quase nada”), no qual lamentou ostensivamente que a guerra de Donald Trump contra o Irã tenha sido encerrada sem uma implacável punição do país persa. Diz o texto:
“O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou um acordo com o Irã em tom de triunfo. O Estreito de Ormuz será reaberto. Os navios voltarão a circular. Após meses convivendo com a ameaça de uma ruptura prolongada do comércio de energia, os mercados respiram aliviados. Depois de quase quatro meses de guerra, não é pouco. Mas está longe de ser muito. (…)
“Não é que a ofensiva americana tenha sido completamente inútil. O Irã sofreu danos reais. Sua infraestrutura militar foi atingida. Parte de suas capacidades nucleares foi degradada. A liderança iraniana descobriu que está longe de ser intocável. Mesmo críticos do conflito reconhecem que, se o regime está mais radicalizado, também está mais vulnerável. Só que vulnerabilidade não é sinônimo de contenção.
“Os mísseis balísticos continuam existindo, bem como a rede regional de milícias terroristas a serviço de Teerã. Os países do Golfo celebram a perspectiva de estabilidade imediata, mas dificilmente se sentem mais seguros do que antes da guerra. Israel, principal aliado regional dos EUA, observa com inquietação um acordo que parece deixar de fora justamente os temas que mais o preocupam.”
Curiosamente, o libelo panfletário não faz qualquer menção às provocações escancaradas de Israel, que afirma às claras a intenção de sabotar o acordo, continuando a bombardear o Líbano sob o pretexto de alvejar o Hezbollah. E, sem diferir muito de outras manifestações nas mídias dos EUA e da Europa, conclui afirmando:
“A história das guerras está repleta de armistícios celebrados como triunfos antes que seus termos fossem postos à prova. O acordo propagandeado por Trump ainda terá de percorrer um longo caminho para demonstrar que pertence a uma categoria diferente.”
Para os editorialistas do jornalão que já foi da família Mesquita (hoje controlado por financistas da Faria Lima), parece que bom mesmo seria se a guerra continuasse.
