Movimento de Solidariedade Íbero-americana
Independentemente do desfecho das negociações em curso entre os principais beligerantes, a guerra de escolha desfechada pelos EUA e Israel contra o Irã, cuja trégua precária tem sido sistematicamente violada por Tel Aviv, colocando em xeque um entendimento entre Washington e Teerã, já demonstrou de forma categórica a inviabilidade da imposição manu militari da agenda hegemônica da maior potência bélica do mundo e de seu aliado mais bem armado e implacável.
A guerra foi uma decisão quase unilateral do presidente Donald Trump, pressionado pelo poderoso lobby sionista e pelo premier Benjamin Netanyahu, contrariamente às posições dos seus assessores militares e de inteligência e do vice-presidente J.D. Vance. Na pauta, sob o disfarce da oposição ao programa nuclear iraniano, a mudança de regime em Teerã, a consolidação de Israel como a potência hegemônica na Ásia Ocidental para a proteção da estrutura do petrodólar e a fragilização ou inviabilização dos corredores de infraestrutura eurasiáticos chineses e russos com passagem pelo Irã. Todos, itens fundamentais da recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.
O resultado foi desastroso.
Em vez de submeter-se, o Irã impôs a sua soberania e infligiu altos custos aos agressores, emergindo como uma virtual superpotência com influência muito além de suas fronteiras. Em lugar de Israel, como Trump pretendia com os chamados Acordos de Abraão, as petromonarquias do Golfo Pérsico serão forçadas a se compor com Teerã – o que já estão fazendo sem alarde.
Além disso, repetindo o ensaio da Guerra dos 12 Dias de 2025, o Irã escreveu um capítulo crucial na redefinição dos conflitos bélicos, elevando a um novo patamar o conceito de guerra assimétrica contra potências nucleares.
No campo estritamente militar, seu arsenal de mísseis hipersônicos e de cruzeiro, drones aéreos e submarinos, lanchas lança-mísseis e minissubmarinos, operando a partir de bem protegidas bases subterrâneas, pode se contrapor efetivamente à grande superioridade aérea e naval inimiga – ordens de grandeza mais dispendiosa –, evidenciando as limitações das forças aéreas convencionais e grupos de ataque de porta-aviões como instrumentos de projeção de poder – importantes ensinamentos para os pelos estados-maiores de todo o mundo.
Todavia, a verdadeira “arma atômica” iraniana foi a militarização da geografia, com o controle do Estreito de Ormuz, via marítima pela qual passam cerca de 20% do petróleo e gás natural consumidos no mundo e percentagens consideráveis de produtos igualmente fundamentais para a economia global, como fertilizantes, ácido sulfúrico, enxofre e hélio. E Teerã já deixou claro que não pretende voltar a abrir mão desse trunfo, seja qual for o regime de passagem resultante do entendimento final com Washington.
Ademais, a interrupção desses fluxos comerciais voltou a ressaltar os problemas das práticas just-in-time da “globalização”, sinalizando as desvantagens de se colocarem os resultados financeiros e balanços trimestrais acima dos requisitos de segurança alimentícia e energética das nações. Trump está diante de uma escolha difícil. Pode contrariar seus apoiadores belicistas e assinar um acordo digno com Teerã. Ou ceder e passar à História como o responsável por uma recessão econômica em escala global. De qualquer maneira, já garantiu seu lugar como símbolo dos limites do poderio estadunidense.
