Lorenzo Carrasco
Nos últimos dias 29 de maio e 1º de junho, ocorreram dois incidentes de vazamento radioativo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), entidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) sediada no campus da Universidade de São Paulo (USP). Os vazamentos provocaram a detecção de traços de tecnécio-99 na roupa de um técnico do Centro de Radiofarmácia e na sola do sapato de outro, sendo prontamente identificados pelo sistema de detecção e isolados, com os materiais contaminados sendo adequadamente descartados, não tendo havido contaminação dos técnicos ou vazamento de radiação para o exterior.
O tecnécio-99 é usado em exames de imagem de medicina nuclear, sendo o IPEN produtor de mais de 90% dos radioisótopos e radiofármacos utilizados na medicina nuclear no Brasil.
Devido à falta de informação e ao preconceito que cercam a energia nuclear, é importante colocar o episódio na devida perspectiva.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) criou uma escala de episódios radioativos de sete níveis, de um a sete. Os três primeiros se referem a incidentes, eventos que envolvem falhas nos protocolos de segurança, mas não representam risco imediato para a população; os quatro últimos se referem a acidentes, que afetam o meio ambiente e exigem contramedidas de proteção da população. O episódio no IPEN se enquadra no nível 1 (Anomalia), quando ocorrem problemas operacionais menores e as medidas de segurança continuam funcionando normalmente. Para comparação, o acidente de vazamento de césio-137 em Goiânia, em 1987, foi classificado no nível 5 e os de Chernobyl, na Ucrânia (1986), e Fukushima, no Japão (2011), no nível 7.
A despeito da ausência de maiores consequências, a Associação dos Servidores da CNEN divulgou um duro manifesto, chamando a atenção para a indisfarçável deterioração da infraestrutura nuclear brasileira e apontando as suas causas:
“Tratam-se de décadas de sucateamento da infraestrutura nuclear brasileira, abandono da formação de quadros técnicos e ausência de um projeto nacional consistente e condizente para um setor estratégico. Enquanto as grandes potências disputam a liderança tecnológica em energia nuclear, produção de radioisótopos, medicina nuclear e aplicações industriais da radiação, o Brasil segue administrando a deterioração de um sistema construído ao longo de gerações de pesquisadores, engenheiros e trabalhadores altamente qualificados.
“O resultado é a crescente vulnerabilidade de instalações essenciais e a perda gradual da capacidade nacional de produzir conhecimento, tecnologia e insumos estratégicos. A crise de pessoal talvez seja o aspecto mais evidente desse processo. Dados da própria Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) mostram que o número de servidores ativos caiu de 2.150 em 2015 para menos de 1.300 em 2025, sendo que mais da metade dos trabalhadores remanescentes já reúne condições para aposentadoria, o que indica uma tendência de agravamento nos próximos anos. O concurso realizado recentemente (o primeiro em mais de uma década) representou uma recomposição parcial, mas está longe de reverter as perdas acumuladas, já que a própria CNEN reconhece que o quantitativo autorizado não é suficiente para restaurar sua capacidade operacional.
“Esse cenário revela uma situação controversa na qual o Estado investe na formação de mestres, doutores e especialistas em física nuclear, engenharia, química e radioproteção, mas não cria mecanismos adequados para absorver esses profissionais. Sem concursos regulares e em carreiras fragilizadas, o conhecimento acumulado ao longo de décadas se dispersa, laboratórios envelhecem, equipes são reduzidas e a transferência de conhecimento entre gerações é interrompida. A consequência é um círculo vicioso de precarização: menos trabalhadores significam menor capacidade de manutenção, fiscalização, pesquisa e inovação e menos investimentos em infraestrutura tornam os sistemas mais vulneráveis a falhas operacionais.”
Argumentos de difícil contestação.
Ironicamente, o episódio ocorreu quando o IPEN comemora os seus 70 anos de existência, tendo sediado o primeiro reator nuclear de pesquisas da América do Sul, o IEA-R1, em funcionamento até hoje, construído com a cooperação do programa Átomos para a Paz do governo dos EUA.
Em paralelo, uma iniciativa de grande relevância é a “Agenda Nuclear para um Brasil Competitivo”, que a Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN) elaborou e pretende apresentar aos partidos que disputarão as eleições de outubro. Em entrevista ao sítio Petronotícias, em 25 de junho, o presidente da entidade, Celso Cunha, listou os itens principais da proposta:
– Flexibilização da mineração de urânio, que necessita de um decreto de regulamentação, para permitir a participação da iniciativa privada.
– Aporte de recursos para a conclusão da usina nuclear Angra 3, ao desenvolvimento da Tecnologia de Enriquecimento de Processo, expansão da fábrica de combustível das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e apoio ao Centro Experimental Aramar da Marinha do Brasil.
– Difusão da disponibilidade e emprego de radioisótopos na medicina nuclear, para o que é imprescindível a conclusão do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB).
– Adoção de uma lei geral para a energia nuclear, nos moldes do que foi feito para o setor de petróleo, visando criar um ambiente favorável para toda a cadeia produtiva.
– O enquadramento dos projetos nucleares como estratégicos, de acordo com a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental.
A ABDAN estima em cerca de R$ 56 bilhões até 2025 os recursos necessários ao desenvolvimento de tal agenda.
Convenhamos que tal valor, distribuído ao longo de quase três décadas, encontra-se perfeitamente dentro das possibilidades nacionais, ainda mais se considerada uma participação maior da iniciativa privada, que já colabora no Projeto do Microrreator Nuclear Nacional (PMNN).
Ao meu ver, como afirmei na coluna de 13 de fevereiro (“É hora da ‘Petronuclear’”), o pulo do gato para a superação dos eternos problemas orçamentários e atrasos de cronogramas do programa nuclear brasileiro seria a sua encampação pela Petrobras, no marco da sua consolidação como uma empresa de energia. Uma “Petrobras Energia” (“Petronuclear”, na coluna), voltada também para o setor energético avançado, em lugar de desperdiçar recursos humanos e econômicos em fontes de baixa densidade energética como as eólicas e solares.
Trata-se de uma perspectiva que, cedo ou tarde, os futuros governos brasileiros, independentemente da orientação ideológica, poderão ser forçados a contemplar, em meio às turbulências do cenário global.
Artigo originalmente publicado na “Gazeta do Povo” (30/06/2026)
