A Reunião de Cúpula da OTAN de 2026 realizada na capital turca, nos dias 7 e 8 de julho, terminou com a assinatura pelos líderes dos respectivos países que compõem o bloco militar da Declaração de Ancara.
Neste documento oficial foram estabelecidos compromissos em matéria de defesa coletiva, apoio à Ucrânia, investimentos militares e adaptação tecnológica dos países-membros.
Eis os pontos principais da declaração:
Artigo 5 e Segurança Coletiva
O documento reafirmou o compromisso com o Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, segundo o qual um ataque contra um membro é considerado um ataque contra todos. A reafirmação teve forte significado político, pois buscou reduzir dúvidas sobre a solidez do compromisso norte-americano com a defesa europeia.
Rússia como principal ameaça
A declaração reiterou que a Rússia continua sendo a ameaça mais significativa à segurança euro-atlântica. A OTAN reafirmou sua estratégia de dissuasão, defesa avançada, fortalecimento do flanco oriental e manutenção de elevada prontidão militar, dentro de uma abordagem de segurança em 360 graus.
Apoio militar ampliado à Ucrânia
Os aliados anunciaram apoio adicional em equipamentos militares, treinamento e assistência à Ucrânia durante 2026, com intenção de manter o esforço nos anos seguintes. O texto também ressaltou que a segurança da Ucrânia está diretamente ligada à segurança da OTAN e que os aliados europeus e o Canadá assumiriam parcela crescente desse apoio.
Maior papel dos europeus
O compartilhamento de encargos e custos da OTAN foi um dos temas centrais da cúpula. A declaração afirma que os países europeus e o Canadá deverão assumir parcela crescente da defesa da aliança, preservando a liderança estratégica conjunta com os Estados Unidos.
Necessidade da expansão da indústria de defesa
A declaração defendeu o aumento da produção de munições, a ampliação da capacidade industrial, novos programas multinacionais de aquisição, maior integração das cadeias produtivas e redução de gargalos no setor de defesa.
Modernização da OTAN
A cúpula enfatizou a passagem de metas políticas para a entrega efetiva de capacidades militares. A modernização da OTAN foi associada a maiores investimentos, fortalecimento industrial e atualização das capacidades operacionais.
Uso da IA e outras tecnologias similares
O documento dedicou atenção à inteligência artificial aplicada ao planejamento militar, sistemas autônomos, drones e sistemas antidrones, integração digital dos comandos e interoperabilidade entre as forças aliadas. Essas prioridades refletem as lições recentes dos conflitos de alta intensidade.
Infraestrutura logística e energética
Outro eixo importante foi a modernização da infraestrutura logística da OTAN, incluindo depósitos de combustível, sistemas de distribuição, oleodutos militares e reforço da infraestrutura estratégica do flanco oriental.
A questão iraniana
A declaração também registrou que o Irã não deve desenvolver armas nucleares e destacou a importância da liberdade de navegação, especialmente em rotas marítimas estratégicas. O tema recebeu menos destaque do que Rússia e Ucrânia.
Escrevendo ao “The Cradle”, o analista Mehmet Ali Guler defende que os EUA estão procurando adaptar o bloco a uma estratégia OTAN 3.0: à medida em que o governo Trump foca sua política externa para o Hemisfério Ocidental, ou seja, o continente americano, aumenta a pressão para que os europeus assumam mais responsabilidades e custos de Defesa. Na Ásia Oriental, busca isolar a China por meio de alianças bilaterais com países da região.
Na prática, isso se manifesta de três maneiras:
1. A Europa assume a responsabilidade principal pela sua própria segurança, o que inclui assumir a liderança no apoio à Ucrânia contra a Rússia. A meta estipulada para os próximos anos é que os gastos de defesa de cada membro do bloco chegue aos 5% do PIB – um número muito ousado para os europeus acostumados a depender dos gastos gigantescos dos EUA.
2. Uma nova ordem está sendo estabelecida no Oriente Médio sob a hegemonia israelense, exigindo a normalização das relações entre a Turquia (membro da OTAN) e Israel, bem como entre Israel e a Síria e os países do Golfo, ao mesmo tempo em que enfraquece o Irã como principal obstáculo.
3. A OTAN aprofunda a cooperação com seus parceiros da Ásia-Pacífico, ou seja, os países do IP4: Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia, integrando-os à sua cadeia de abastecimento de armamentos e ampliando gradualmente o alcance da OTAN na Ásia.
Em linhas gerais, a Reunião de Cúpula de 2026 serviu para reafirmar o papel de liderança dos EUA no bloco, mesmo que sem manifestações de entusiasmo dos líderes europeus.
Foto: Chris McGrath/Getty Images
