Em discurso no Senado argentino, Pablo J. Davoli criticou políticas de controle populacional, relacionou o debate demográfico a correntes malthusianas e eugenistas e defendeu uma política nacional de incentivo ao crescimento e à distribuição territorial da população
A redução das taxas de natalidade e os desafios demográficos enfrentados pela Argentina foram abordados sob uma perspectiva crítica pelo advogado e escritor Pablo J. Davoli durante uma jornada organizada pela Direção-Geral de Relações Internacionais do Senado argentino. Em discurso realizado em 11 de agosto de 2026, Davoli concentrou sua intervenção no que denominou de “controle demográfico”, entendido por ele como a manipulação deliberada do tamanho de uma população contra a vontade ou os interesses de seus integrantes.
O autor inseriu o tema em uma trajetória intelectual de mais de dois séculos, associando as políticas de contenção do crescimento populacional a diferentes correntes, entre elas o malthusianismo, o darwinismo social e a eugenia. Segundo Davoli, autores como Thomas Malthus, Francis Galton, Ernst Haeckel e Herbert Spencer teriam lançado bases intelectuais posteriormente retomadas, sob diferentes formas, no debate contemporâneo sobre população, recursos naturais e desenvolvimento.
Davoli classificou esse conjunto de ideias como uma espécie de “hobbesianismo demográfico”, em referência à obra do filósofo inglês Thomas Hobbes. Este apresenta a existência de um “estado de natureza” primordial nas sociedades humanas, marcado por um desequilíbrio essencial e conflitivo, no qual a sobrevivência de alguns depende da morte direta ou indiretamente inflingida de muitos.
Na sua interpretação, Davoli partiria da premissa de que existe um conflito inevitável entre crescimento populacional e disponibilidade de recursos, justificando intervenções estatais ou internacionais destinadas a limitar a população. O palestrante rejeitou essa concepção e argumentou que ela desconsideraria tanto a capacidade humana de adaptação quanto a liberdade individual e a dignidade da pessoa.
De Malthus ao debate ambiental
Parte significativa da exposição foi dedicada à reconstrução histórica de instituições, documentos e iniciativas que Davoli considera relacionadas às políticas internacionais de controle populacional.
Entre elas, mencionou a American Birth Control League, fundada por Margaret Sanger em 1921 e posteriormente relacionada à criação da Planned Parenthood Federation of America e da International Planned Parenthood Federation (IPPF); o Population Council, criado por John D. Rockefeller III em 1952; o Clube de Roma; o Banco Mundial durante a presidência de Robert McNamara; e documentos de segurança nacional elaborados pelo governo dos Estados Unidos na década de 1970.
O discurso também destacou o relatório “Os Limites do Crescimento”, publicado pelo Clube de Roma em 1972. O documento tornou-se uma das referências internacionais do debate sobre os efeitos do crescimento econômico e populacional sobre recursos naturais e meio ambiente. Davoli interpreta essa tradição intelectual de maneira crítica, considerando que previsões de escassez e colapso podem servir de justificativa para políticas destinadas a conter a expansão populacional.
Na mesma linha, o autor mencionou o memorando norte-americano NSSM-200, produzido na década de 1970 sob a liderança de Henry Kissinger, além das discussões realizadas na Conferência Mundial de População das Nações Unidas, em Bucareste, em 1974.
Gates, Harari e a controvérsia sobre população
O discurso também abordou declarações de personalidades contemporâneas como Bill Gates e o historiador Yuval Noah Harari.
Davoli citou uma apresentação de Gates realizada em 2010 sobre emissões de carbono, na qual o empresário relacionou projeções populacionais a avanços em vacinação, assistência médica e serviços de saúde reprodutiva. O próprio texto de Davoli, contudo, registra em nota uma ressalva importante: uma checagem da organização argentina Chequeado concluiu que Gates se referia à possibilidade de reduzir a taxa de crescimento populacional, e não de diminuir deliberadamente a população mundial.
Harari, por sua vez, foi mencionado por uma palestra de 2015 na qual discutiu os possíveis efeitos da automação e da inteligência computacional sobre o mercado de trabalho e levantou a hipótese do surgimento de uma grande parcela da população economicamente “redundante”. O próprio discurso registra que Harari apresentou essas ideias como cenários possíveis, e não como uma previsão inevitável.
Davoli estendeu suas críticas a organismos internacionais e fundações privadas envolvidos em políticas de saúde reprodutiva, entre eles o Fundo de População das Nações Unidas, a Organização Mundial da Saúde, a IPPF e a Fundação Bill e Melinda Gates. Também afirmou que determinados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, especialmente aqueles relacionados à pobreza, saúde e igualdade de gênero, teriam programas capazes de influenciar negativamente as taxas de natalidade. Trata-se, nesse ponto, de uma interpretação apresentada pelo autor no discurso.
Disputa sobre interesses econômicos e geopolíticos
Para Davoli, o debate populacional não estaria restrito ao campo científico ou ambiental. O autor sustenta que políticas de controle demográfico também podem estar vinculadas a interesses econômicos e geopolíticos.
Em sua avaliação, algumas iniciativas internacionais teriam como objetivo preservar hegemonias estatais, vantagens econômicas e privilégios sociais. Ele também relaciona o tema à concentração de poder econômico e à possibilidade de fortalecimento de estruturas supranacionais de decisão política.
A argumentação assume, assim, uma perspectiva simultaneamente demográfica, econômica, política e religiosa. Davoli recorre ao pensamento social católico e menciona a encíclica “Evangelium Vitae”, de João Paulo II, que em 1995 denunciou o que o pontífice chamou de uma “ataque contra a vida”.
“Governar é povoar”
Na parte final de sua exposição, Davoli deslocou o foco para a situação argentina. Segundo ele, o país dispõe de vasto território e importantes reservas de recursos naturais, circunstância que tornaria inadequada, em sua avaliação, a ideia de que a Argentina sofre de excesso populacional.
O palestrante recuperou então a conhecida máxima de Juan Bautista Alberdi — “governar é povoar” — e defendeu uma política destinada a ampliar a população argentina, sobretudo por meio do fortalecimento das famílias e de uma distribuição geográfica mais equilibrada dos habitantes pelo território nacional.
Como precedente histórico, lembrou a criação da Comissão Nacional de População pelo então presidente Juan Domingo Perón, em março de 1974. Segundo o documento, o órgão recebeu a missão de elaborar uma política nacional de população, promover seu crescimento quantitativo e qualitativo e melhorar sua distribuição regional.
Para Davoli, essa tarefa permanece inconclusa e tornou-se mais urgente diante das atuais tendências demográficas. Sua proposta é que o Estado argentino volte a tratar a população como elemento estratégico de longo prazo, associando crescimento demográfico, ocupação territorial, desenvolvimento econômico e soberania nacional.
A conclusão do discurso recuperou referências religiosas e históricas para defender uma política populacional orientada ao crescimento. Na visão apresentada pelo autor, a questão demográfica ultrapassa as estatísticas de natalidade e envelhecimento: constitui um problema relacionado ao próprio futuro da Argentina como Estado nacional.
Com informações do KontraInfo.
